Um lamentável episódio de assédio sexual chocou o cenário do futebol paulista no último sábado (7), véspera do Dia Internacional da Mulher. A Dra. Bianca Francelino, médica atuante em campo, foi alvo de ofensas de cunho sexual por parte de torcedores durante uma partida da Série A4 do Campeonato Paulista, em Ribeirão Preto. Apesar da gravidade do ocorrido, a profissional demonstrou inabalável resiliência, declarando que o incidente não a fará desistir de sua paixão pelo esporte e de seu trabalho, mantendo-se firme em sua determinação de atuar na área.
A Inaceitável Ocorrência no Estádio Palma Travassos
O incidente se desenrolou no Estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto, durante o confronto entre Comercial e Nacional-SP, válido pela nona rodada da Série A4. A Dra. Bianca Francelino, que prestava assistência à equipe visitante, foi incessantemente importunada por torcedores que se posicionavam no alambrado. Relatos da médica apontam para uma série de gritos e comentários sexualmente explícitos, como "doutora gostosa, vem aqui me examinar" e "doutora gostosa, estou com uma dor aqui", acompanhados de gestos obscenos. Além das investidas de cunho sexual, os agressores ainda proferiram ameaças e mensagens desqualificadoras, sugerindo que ela deveria "ficar em casa" caso não desejasse ouvir tais "brincadeiras", uma clara tentativa de coação e intimidação em seu ambiente de trabalho.
Resposta Institucional e Apoio à Vítima
A repercussão do assédio gerou uma rápida mobilização das entidades envolvidas. O Comercial, clube mandante da partida, emitiu uma nota de repúdio ao ocorrido, informando que um dos torcedores responsáveis já foi identificado. Paralelamente, a Federação Paulista de Futebol (FPF) confirmou o envio do caso às autoridades competentes, assegurando que os envolvidos enfrentarão punições rigorosas. A FPF também destacou que a árbitra da partida, Ana Caroline D'Eleutério, prontamente acionou o protocolo previsto pelo tratado de diversidade e combate à intolerância no futebol paulista, garantindo que a Dra. Bianca recebesse o apoio necessário no momento. A súmula do jogo, documento oficial da arbitragem, detalha o relato do técnico do Nacional-SP, Tuca Guimarães, que informou sobre um torcedor que apontou sua genitália em direção à médica, gerando um princípio de tumulto entre jogadores e torcida.
A Resiliência Pessoal e a Defesa Familiar
Diante da afronta, a Dra. Bianca Francelino reafirmou sua inquebrantável paixão pelo esporte, enfatizando que episódios isolados de intolerância não a desmotivarão de atuar em sua área de escolha. Sua postura resiliente foi ecoada pelo apoio de seus familiares presentes no estádio. Paulo Galvão, namorado da médica, e o pai dele testemunharam as ofensas da arquibancada. Em um ato de defesa, Paulo tentou intervir, confrontando um dos agressores. Contudo, a situação escalou para ameaças contra ele e seu pai. A Polícia Militar, ao chegar ao local para conter o conflito, surpreendentemente, inicialmente considerou a retirada de Paulo e seu pai, em vez do agressor, um equívoco que exigiu esclarecimentos para garantir a proteção das vítimas e a devida intervenção.
Consequências Legais e o Impacto no Futebol
As implicações para o Comercial e os torcedores identificados podem ser severas. Segundo Vitor Silva Muniz, presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Ribeirão Preto, o clube pode ser responsabilizado e sujeito a uma multa de até R$ 100 mil, conforme o artigo 243 G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que prevê punições tanto para o clube quanto para os indivíduos envolvidos. Os torcedores que praticaram o assédio, além das sanções criminais que possam decorrer do caso, correm o risco de serem proibidos de frequentar estádios por um período de até dois anos. Este incidente sublinha a necessidade urgente de coibir comportamentos misóginos e violentos no esporte, reforçando que o ambiente esportivo deve ser seguro e respeitoso para todos os profissionais e torcedores.
O caso da Dra. Bianca Francelino serve como um doloroso lembrete da persistência do assédio e da misoginia em diversos espaços, incluindo o esporte. Sua corajosa atitude de denunciar e reafirmar seu compromisso com a paixão que a move é um exemplo inspirador. É fundamental que as autoridades e as instituições esportivas continuem a atuar de forma decisiva para garantir que estádios sejam ambientes de celebração e competição saudável, jamais de violência ou desrespeito. A punição exemplar dos responsáveis não apenas fará justiça à médica, mas também enviará uma mensagem clara de que o futebol não tolerará a intimidação e o assédio contra as mulheres.
Fonte: https://g1.globo.com



