Ruth Lydie Joseph, uma estudante haitiana de Relações Internacionais na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), afirma ter sido impedida de embarcar em dois voos da Latam com destino à Europa, partindo do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. A acadêmica relata ter sofrido discriminação e humilhação durante a abordagem da companhia aérea, enquanto se preparava para um intercâmbio acadêmico na República Tcheca. O Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) manifestou grave preocupação com o caso, citando a ausência de informações claras e assistência adequada, além da possibilidade de tratamento discriminatório. Em resposta às acusações, a Latam informou que está em processo de apuração dos fatos.
A Jornada Interrompida: Abordagem e Alegação de 'Perfil Inadequado'
Residente no Brasil desde 2020 em Foz do Iguaçu, Paraná, Ruth Lydie Joseph, de 32 anos, possui visto humanitário e estava a caminho da Philosophical Faculty da University of Hradec Králové, na República Tcheca, para participar de um programa de mobilidade acadêmica até junho deste ano. O incidente inicial ocorreu na última terça-feira (10), quando ela se preparava para embarcar em um voo da Latam com destino a Praga, com escala em Frankfurt. Durante o processo de despacho de bagagens, um segurança da companhia aérea abordou Ruth, retirando suas etiquetas de bagagem e iniciando uma série de questionamentos sobre sua vida no Brasil e o propósito de sua viagem à Europa.
Segundo o relato da estudante, as perguntas tornaram-se invasivas e repetitivas, culminando na declaração do segurança de que ela não viajaria, sob a justificativa de não possuir o “perfil adequado” para a viagem. Suas passagens foram confiscadas e as etiquetas de bagagem arrancadas, gerando um sentimento de humilhação e intimidação diante dos demais passageiros. Consequentemente, Ruth perdeu o primeiro voo. Após o ocorrido, ela informou que a Unila tentou intervir, solicitando um relatório por escrito, mas a companhia aérea optou por remarcar a viagem, prometendo uma nova avaliação.
Segunda Tentativa e a Persistência da Falta de Assistência
Diante da situação, a estudante remarcou o voo para o dia seguinte, quarta-feira (11), desta vez com destino a Praga e escala em Lisboa. Contudo, a segunda tentativa de embarque também foi frustrada. Ruth Lydie Joseph explica que a emissão do novo cartão de embarque demorou excessivamente, e a entrega do bilhete ocorreu com atraso, resultando na perda do segundo voo, apesar da confusão sobre o horário exato de partida (o bilhete indicava 5h40, mas a decolagem ocorreu às 5h10). A estudante enfatizou que, em ambas as ocasiões, não recebeu qualquer assistência ou suporte por parte da Latam, permanecendo no aeroporto sem auxílio até que o CDHIC fosse acionado pela Unila.
Análise do CDHIC: Discriminação e Desrespeito à Comunidade Migrante
A intervenção do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), motivada pela Unila, trouxe à tona a gravidade das alegações. Kathelly Menezes, advogada do CDHIC, classificou o episódio como um preocupante caso de descaso e desrespeito à comunidade migrante e refugiada que busca no Brasil um recomeço. Menezes sublinhou que não compete a uma companhia aérea emitir juízos subjetivos sobre o 'perfil' de um passageiro para ingressar em determinado país, especialmente quando tais julgamentos resultam em tratamento discriminatório e violação de direitos fundamentais.
A advogada ressaltou a preocupação de que práticas desse tipo, seja por empresas terceirizadas ou procedimentos internos de companhias aéreas, possam reforçar barreiras e estigmas direcionados a pessoas migrantes. Para o CDHIC, o fato de Ruth ser uma mulher migrante e negra é um elemento crucial para compreender a profundidade da situação, visto que fatores como raça, origem e nacionalidade frequentemente exacerbam abordagens discriminatórias em contextos migratórios.
Andamento do Caso e o Compromisso de Acompanhamento
Após os dois impedimentos, a estudante foi informada, na noite de quinta-feira (12), que seu voo havia sido reagendado para a próxima segunda-feira (16), com uma escala em Madri. Enquanto a Latam mantém sua posição de apuração dos fatos, o CDHIC reafirmou seu compromisso em acompanhar de perto o desdobramento do caso, garantindo que os direitos da estudante sejam respeitados e que a situação receba a devida atenção e resolução.
A experiência de Ruth Lydie Joseph levanta questões importantes sobre as práticas de companhias aéreas e o tratamento dispensado a migrantes, especialmente em cenários internacionais. O incidente ressalta a necessidade de clareza, respeito e assistência adequada, e reforça o debate sobre o papel de instituições na garantia dos direitos humanos e na combate à discriminação em todas as suas formas.
Fonte: https://g1.globo.com



