Em uma data de profunda ressonância histórica, o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas, celebrado em 25 de março, Ilhabela se tornou palco de um encontro crucial que interliga passado, presente e futuro. O município do litoral paulista, intrinsecamente marcado pela diáspora africana, abriu suas portas para um debate aprofundado sobre o afroturismo, uma iniciativa que busca reescrever narrativas e forjar um novo caminho para o desenvolvimento socioeconômico e cultural.
O evento, que reuniu um grupo de aproximadamente 100 visitantes de New Orleans, EUA, ao lado de renomadas lideranças nacionais, transcende a mera discussão para propor uma imersão nas raízes africanas que moldaram a identidade brasileira. Este movimento colaborativo, coordenado pelo Oxigênio Ilhabela em parceria com a Diaspora.Black, destaca a vocação da ilha para um modelo de turismo que valoriza a história, fortalece comunidades e promove a justiça social e ambiental.
Ilhabela: Um Porto de Memória e Resistência
A escolha de Ilhabela como sede para este diálogo sobre afroturismo não é aleatória; ela se alicerça em um passado que posicionou a ilha como um dos maiores pontos de desembarque clandestino de africanos escravizados no Brasil, após a proibição do tráfico negreiro. A paisagem local guarda ainda hoje vestígios pungentes desse período sombrio, como o navio negreiro naufragado visível em maré baixa na Praia de Castelhanos, ou a etimologia da Praia da Fome, que remete à triste prática de engorda de homens antes de serem comercializados em outras regiões.
Essas cicatrizes históricas, incrustadas na geografia e na memória coletiva, conferem a Ilhabela uma identidade única e a transformam em um espaço emblemático para a reconexão com a ancestralidade e a reflexão sobre o impacto da escravidão. Compreender e revisitar esses locais permite que o afroturismo em Ilhabela vá além da simples visitação, tornando-se uma ferramenta poderosa para a educação, a valorização da cultura afro-brasileira e a construção de um futuro mais equitativo.
A Jornada da Diáspora: Reconexão e Experiência Comunitária
A programação do evento iniciou-se com uma experiência imersiva de turismo de base comunitária, concebida para o grupo de visitantes oriundos de New Orleans. Esta cidade da Louisiana, com suas fortes conexões históricas à diáspora afro-atlântica, simboliza o elo transatlântico que o afroturismo busca ressignificar. A visita a Ilhabela integra uma jornada afrocentrada mais ampla que o grupo realiza pelo Brasil, abrangendo pontos como o Memorial das Baianas e o Centro Histórico de Salvador, a Pequena África no Rio de Janeiro, e caminhadas guiadas pelo centro histórico de São Paulo.
Ao desembarcar em Ilhabela, o percurso dos visitantes encontrou o mar e a riqueza dos saberes afro-caiçaras. A experiência local foi desenhada para conectar os participantes a narrativas ligadas à memória do quilombo e às tecnologias ancestrais de relação com a natureza, oferecendo um contato autêntico com a cultura e a história. Essa abordagem não apenas proporciona um intercâmbio cultural significativo, mas também fomenta a valorização das comunidades locais e seus conhecimentos, distanciando-se de modelos turísticos predatórios.
Fórum de Afroturismo e Economia Criativa: Debates e Perspectivas
No período da tarde, o Esporte Clube Ilhabela sediou o Fórum de Afroturismo e Economia Criativa, um espaço dinâmico para o intercâmbio de ideias e a formulação de estratégias. O fórum, realizado e mediado pelo Oxigênio Ilhabela com o apoio da Secretaria de Turismo, reuniu referências nacionais do setor, empreendedores e lideranças regionais. O objetivo central foi aprofundar o debate sobre como o afroturismo pode ser um motor de desenvolvimento e transformação social.
Vozes que Moldam o Futuro do Afroturismo
O painel de debatedores trouxe perspectivas multifacetadas sobre o tema. Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta, maior festival de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, contribuiu com sua visão sobre a consolidação do mercado e o fortalecimento do afroempreendedorismo como uma política econômica eficaz. Carlos Humberto, idealizador da Diaspora.Black e reconhecido pela Embratur, compartilhou a expertise na estruturação do segmento como vetor de desenvolvimento e conexão internacional, destacando o potencial de Ilhabela nesse cenário.
Kamila Camilo, empreendedora social e fundadora do Instituto Oyá, abordou a interseção entre justiça climática e turismo consciente, explorando como novos modelos podem contribuir para a regeneração ambiental, a valorização cultural e o desenvolvimento dos territórios. A deputada estadual Marina Helou enriqueceu a discussão com a ótica das políticas públicas, enfatizando a necessidade de construir uma agenda que apoie o turismo regenerativo. Completando o painel, Benilda Brito, referência nacional em letramento racial e desenvolvimento territorial, trouxe sua vasta experiência em redes brasileiras e agendas internacionais, sublinhando a importância da consciência histórica para qualquer planejamento futuro.
Ilhabela no Horizonte: Qual Turismo Construir?
A pergunta central que permeou o encontro foi um convite à reflexão profunda: que tipo de turismo Ilhabela almeja fortalecer? Seria um modelo focado apenas no fluxo e na sazonalidade, ou uma estratégia que distribui renda, fortalece as comunidades locais, valoriza a cultura viva e posiciona o território como um farol em turismo de base comunitária? Essa questão encapsula o dilema entre um desenvolvimento meramente econômico e um crescimento que é socialmente justo e ambientalmente sustentável.
Aziz Camali, cofundador do Oxigênio Ilhabela, sublinhou a profunda dimensão simbólica da coincidência entre a chegada do grupo e o 25 de março. Ele ressaltou que, se no passado o Atlântico representou uma rota de violência, hoje ele pode ser visto como uma travessia contemporânea de reconexão, intercâmbio e construção de futuro. A proposta é clara: potencializar uma agenda que brota da identidade local e da consciência histórica, orientando modelos econômicos mais justos que priorizam a comunidade e estimulam um turismo genuinamente regenerativo.
Conclusão: Um Novo Paradigma para Ilhabela e o Brasil
O encontro em Ilhabela representa um marco na consolidação do afroturismo no Brasil, reafirmando seu papel como um poderoso instrumento de valorização histórica, empoderamento econômico e transformação social. Ao integrar a memória da escravidão com a pujança da cultura afro-brasileira e as perspectivas da economia criativa, a ilha se projeta como um laboratório para a construção de um modelo turístico inovador e consciente. A iniciativa não só honra as vítimas de um passado brutal, mas também pavimenta o caminho para um futuro onde o turismo é uma força para a justiça, a equidade e o respeito à diversidade, posicionando Ilhabela como um modelo inspirador para o país e o mundo.
Participe: Informações do Evento
<b>Evento:</b> Painel Oxigênio Ilhabela – Fórum de Afroturismo e Economia Criativa<br><b>Data:</b> 25 de março<br><b>Horário:</b> 15h às 19h<br><b>Local:</b> Esporte Clube Ilhabela – Ilhabela (SP)<br><b>Inscrições e mais informações:</b> oxigenioilhabela.com.br<br><b>Valores:</b> R$ 80 (inteira) e R$ 20 (ingresso social – quantidade limitada)
Fonte: https://novaimprensa.com



