Em um cenário educacional cada vez mais desafiador, onde a tela do celular disputa a atenção com o quadro-negro e a ansiedade pré-vestibular se intensifica, educadores de Ribeirão Preto (SP) revelam suas estratégias para reconectar-se com os alunos. Longe das metodologias tradicionais, profissionais como Jerusa Nazar, carinhosamente conhecida como Jejequinha, da unidade Médio e Pré-Vestibular do Liceu Albert Sabin, apostam no fator humano e na empatia para criar um ambiente propício ao aprendizado. Com sua abordagem espontânea e cantada, Jerusa transforma o clima da sala, um lembrete de que o engajamento vai além da transmissão de conteúdo.
O Desafio da Atenção na Era Digital
A professora de química Jerusa Nazar ressalta que o estudante contemporâneo demanda muito mais dos educadores. Para ela, a chave para competir com as inúmeras distrações do mundo virtual é a autenticidade. "É preciso lidar com muita verdade", afirma, defendendo o valor do contato "olho no olho" e o reconhecimento do aluno como um "ser humano, com sentimento", em contraponto à despersonalização frequentemente presente na era digital. Essa conexão genuína é vista como um escudo contra a pulverização do foco e a busca constante por novidades em telas.
Complementando essa visão, Marcos Roberto de Castro Silva, o Marcão, professor de história no mesmo Liceu, enfatiza a preparação meticulosa da aula como ferramenta primordial. Para ele, o docente deve atuar como um baluarte contra a desmotivação e o desinteresse crescentes, agravados pelo impacto das redes sociais e da pandemia. O objetivo é ir além da mera "informação", buscando a "formação" integral do indivíduo, capacitando-o a entender a realidade e avançar diante dos problemas geracionais que surgem, reconhecendo que o professor precisa compreender esse novo cenário.
A Empatia como Ponte para as Novas Gerações
Professores com mais de duas décadas de experiência reconhecem a imperatividade de se reinventar anualmente para acompanhar as transformações das gerações. Tiago Biajoni Veloso de Almeida, docente de Física na Escola SEB AZ Lafaiete, adota a empatia como pilar de sua comunicação. Em vez de tentar replicar a linguagem ou os interesses superficiais dos jovens, ele busca um entendimento mais profundo: "é tentar pegar esse lado humano, que eles são seres humanos como eu, quando era jovem", explica. Esta abordagem permite uma conexão mais autêntica e duradoura, fundamental para transpor as barreiras culturais.
A percepção dos educadores é unânime: a velocidade das informações na internet, a cultura da comparação impulsionada pelas redes sociais e a crescente ansiedade são fatores que moldam o comportamento dos alunos. Jerusa Nazar aponta para a "romantização" da exaustão e das longas horas de estudo – uma "vitrine" da dedicação que, muitas vezes, mascara a falta de "consistência" e a preocupação excessiva com a conquista da vaga, negligenciando o processo de aprendizado em si. Os professores se veem na missão de expandir essa perspectiva, mostrando que a vida e o conhecimento abrangem muito mais do que a superficialidade do ambiente virtual.
Estratégias Pedagógicas para Além do Conteúdo
Para combater a idealização do sucesso e promover um aprendizado mais significativo, os professores têm adotado táticas que transcendem a mera transmissão de matéria. Uma delas é a vulnerabilidade autêntica: compartilhar suas próprias falhas e dificuldades. Tiago Biajoni, por exemplo, não hesita em revelar que "foi um aluno que repetiu de ano", desmistificando a imagem do professor infalível e inspirando os estudantes com a mensagem de que "é possível" superar obstáculos. Essa atitude humaniza o educador e fortalece o vínculo com a turma, mostrando um lado mais próximo da realidade dos jovens.
Outras abordagens incluem a contextualização do conhecimento para além do vestibular. Em suas aulas, Marcão utiliza a história não apenas para explicar o passado, mas para "estabelecer essa analogia entre passado e presente", fomentando o senso crítico e a capacidade de análise dos alunos sobre os dias atuais. Esta estratégia não só prende a atenção, mas também confere relevância prática ao conteúdo, preparando-os não só para as provas, mas para a vida em sociedade e a compreensão do mundo em que vivem.
Lidar com a complexidade da sala de aula contemporânea, administrando tanto o conteúdo programático quanto o aspecto emocional dos alunos, exige uma dedicação que vai além da mera profissão. É uma vocação que demanda atualização constante, empatia profunda e a capacidade de enxergar em cada estudante um ser humano em formação. Os professores de pré-vestibular de Ribeirão Preto demonstram que, mesmo diante de um mundo em constante transformação, o poder da conexão humana e da educação significativa permanece insubstituível na construção do futuro de seus alunos.
Fonte: https://g1.globo.com



