Um estudo recente, conduzido por pesquisadores brasileiros, lança um alerta sombrio sobre o futuro da onça-pintada na Mata Atlântica. A pesquisa aponta uma correlação direta entre a escassez de alimentos e o declínio preocupante da população do maior felino das Américas no bioma. Caso a redução das espécies que compõem a dieta da onça persista, o predador de topo de cadeia pode desaparecer completamente da região, um cenário que os cientistas classificam como uma 'extinção silenciosa' de suas presas.
Publicado na renomada revista Global Ecology and Conservation e coordenado pela professora Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), o levantamento detalha a baixa abundância e biomassa das presas preferenciais da onça-pintada em diversas áreas analisadas. Este fenômeno, de desaparecimento gradual e contínuo da base alimentar, representa uma ameaça existencial para a sobrevivência do felino em seu habitat natural.
A Fragilidade da Cadeia Alimentar: Um Alerta Urgente
A pesquisa revela um panorama de extrema vulnerabilidade para as onças-pintadas. Em grande parte das regiões estudadas, a disponibilidade de animais que servem de alimento para o felino é alarmantemente baixa. A média detectada ficou aquém de cinco indivíduos por espécie em cada ponto monitorado, o que é insuficiente para sustentar um predador de grande porte ao longo do tempo. Esta insuficiência não se restringe apenas à quantidade de animais, mas também ao seu peso total, com a biomassa somada das espécies estando frequentemente abaixo de 100 kg, um patamar crítico para a manutenção de populações de onças-pintadas.
A professora Ferraz sublinha a gravidade da situação: 'Se nada for feito, nós seremos o primeiro bioma do mundo a ter um predador de topo de cadeia, que no caso é a onça-pintada, extinto. Perdê-la seria uma tragédia ambiental de proporções sem tamanho'. Este alerta ressoa com preocupações levantadas desde 2013, quando pesquisadores já indicavam um declínio populacional da espécie na Mata Atlântica.
Metodologia Abrangente para Análise de Presas
Para chegar a essas conclusões, o estudo empregou uma metodologia rigorosa e multifacetada. Inicialmente, os pesquisadores realizaram uma extensa revisão de estudos sobre a dieta da onça-pintada publicados entre 1983 e 2025, analisando 719 amostras e identificando 36 itens alimentares. A partir dessa análise, foram selecionadas 14 espécies de mamíferos que constituem a base alimentar essencial do felino na Mata Atlântica, incluindo catetos, queixadas, cervídeos, antas e pacas.
O trabalho de campo envolveu o monitoramento de nove áreas protegidas na Mata Atlântica, abrangendo parques nacionais e estaduais, além de uma área de proteção ambiental. Em 496 pontos específicos, foram instaladas câmeras automáticas, configuradas em grade com 1 km de distância entre si, permanecendo ativas 24 horas por dia por aproximadamente 30 dias em cada localidade. Os dados coletados a partir dessas 'armadilhas fotográficas' foram então processados por modelos matemáticos avançados, que permitiram calcular a média de indivíduos e a biomassa total de presas, considerando fatores ambientais e a frequência de detecção dos animais.
O Contraste do Parque Nacional do Iguaçu: Um Oásis Raro
Os resultados do levantamento evidenciam uma clara disparidade na disponibilidade de presas ao longo do bioma. Enquanto a maioria das áreas analisadas apresentou números reduzidos das 14 espécies de mamíferos que formam a base alimentar da onça, o Parque Nacional do Iguaçu (PNI) se destacou como uma exceção notável. No PNI, a média de indivíduos somando todas as espécies avaliadas alcançou 27,3, e a biomassa total registrada foi de expressivos 638 kg, o que a torna a maior entre todas as regiões monitoradas.
Não por acaso, o Parque Nacional do Iguaçu concentra a maior população de onças-pintadas da Mata Atlântica, beneficiando-se de uma base de presas relativamente saudável, composta por animais como veados, porcos-do-mato, capivaras e cutias. Este cenário, no entanto, é descrito pela pesquisadora como 'extremamente raro', contrastando com as áreas que, ao registrarem menos animais disponíveis, também apresentam ausência ou um número muito baixo de onças, confirmando a crucial interdependência entre predador e presa.
Fragmentação e o Futuro Incerto da Onça-Pintada
A Mata Atlântica, bioma onde a onça-pintada se encontra sob grave ameaça, sofreu a perda de cerca de 85% de seu habitat original. Essa drástica redução resultou em populações de onças extremamente pequenas e isoladas, que hoje ocupam apenas uma fração do que resta do bioma. A fragmentação do ambiente não apenas diminui diretamente o espaço vital dos felinos, mas também impacta severamente a capacidade de recuperação e dispersão das populações de suas presas, perpetuando o ciclo de escassez alimentar.
A relação direta entre a baixa abundância de presas e a ausência de onças-pintadas nos fragmentos florestais mais degradados reforça a urgência de medidas de conservação. A viabilidade a longo prazo da onça-pintada na Mata Atlântica depende intrinsecamente da proteção e restauração dos ecossistemas que sustentam sua base alimentar, evitando que a 'extinção silenciosa' se torne um capítulo final para este magnífico predador.
As descobertas deste estudo não são apenas um indicativo da saúde de uma espécie, mas um termômetro da integridade de todo o bioma. A onça-pintada, como predador de topo, desempenha um papel vital na manutenção do equilíbrio ecológico da Mata Atlântica. Sua potencial extinção local seria um sinal inequívoco de um colapso ambiental de larga escala, com consequências imprevisíveis para a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. A hora de agir, com políticas eficazes de conservação e restauração de habitat e populações de presas, é agora para evitar uma perda irreversível.
Fonte: https://g1.globo.com



