Uma operação conjunta em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, revelou um cenário de profunda negligência e condições desumanas em uma casa de repouso clandestina. O resgate de uma idosa de 87 anos, encontrada com larvas na boca, não apenas chocou seus familiares, que descreveram a cena como 'filme de terror', mas também levou à imediata interdição do estabelecimento e ao socorro de outros onze idosos que ali viviam.
O Resgate e a Descoberta Chocante
A situação alarmante veio à tona na última quarta-feira (25), quando um familiar da idosa, um primo, visitou-a no bairro Monte Alegre, zona Oeste da cidade. Ao notar o mal-estar da parente, ele identificou a presença de larvas em sua boca, uma imagem que o revoltou e impulsionou o acionamento das autoridades. A idosa foi prontamente atendida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Sumarezinho, onde recebeu o diagnóstico de miíase oral – uma infestação de larvas e moscas que se manifesta em tecidos com higiene precária, popularmente conhecida como 'bicheira'. Devido à gravidade do quadro, a mulher foi transferida para a Santa Casa de Ribeirão Preto, onde passou por cirurgia. Embora em recuperação inicial, a família informou que, na sexta-feira (27), ela foi diagnosticada com pneumonia, recebendo tratamento adicional para a doença.
A Interdição e a Operação Clandestina
A denúncia sobre o estado da idosa desencadeou uma fiscalização imediata por parte da Vigilância Sanitária, que constatou irregularidades graves. A 'Instituição Geriátrica Day Care Acolher' operava clandestinamente no bairro Monte Alegre, sem as devidas autorizações legais, resultando em sua interdição. Durante a ação, os responsáveis pelo local foram identificados e estavam presentes no imóvel. Além da mulher de 87 anos, outros onze residentes, também em idade avançada, estavam sob os cuidados da instituição. Dez deles foram encaminhados a hospitais para avaliação e tratamento, enquanto uma idosa, inicialmente sob acompanhamento do poder público no local, foi posteriormente transferida para a guarda de familiares, conforme informou a Prefeitura de Ribeirão Preto.
Histórico de Negligência e a Dor Familiar
A idosa residia na casa de repouso há aproximadamente três anos, uma decisão que a família tomou após o falecimento de seu filho de consideração, com quem morava no Jardim Paulistano. Diante da necessidade de cuidados constantes e da impossibilidade de acompanhamento diário pelos parentes que trabalham, a internação na clínica parecia ser a solução para garantir sua assistência. A família custeava R$ 4,5 mil mensais pela estadia, valor dividido entre os membros. No entanto, o jornalista Igor Ramos, sobrinho da idosa, relata que, ao longo do tempo, as visitas revelavam uma progressiva deterioração nos serviços. Observaram uma redução no número de cuidadores — em uma ocasião, havia apenas dois para todos os idosos — e a mudança na alimentação da idosa para sonda, sem qualquer laudo médico que justificasse tal procedimento. Quando questionados sobre as larvas, os responsáveis apresentaram uma justificativa considerada 'pífia' pela família: a de que a idosa 'ficava muito com a boca aberta', o que só aumentou a indignação dos parentes.
Desdobramentos Legais e Investigação
Diante da gravidade dos fatos, a Polícia Civil de Ribeirão Preto esteve no local na última quarta-feira e deverá instaurar um inquérito para investigar as responsabilidades criminais. Em paralelo, o promotor de Justiça Carlos Cezar Barbosa informou que aguarda a finalização da apuração da Vigilância Sanitária para definir as medidas que serão adotadas pelo Ministério Público. Equipes das Secretarias da Saúde e da Assistência Social também colaboraram ativamente na fiscalização e no atendimento aos idosos. A família, por sua vez, já manifestou a intenção de buscar reparação legal contra os responsáveis pela Instituição Geriátrica Day Care Acolher, visando justiça pelo sofrimento e pela negligência sofridos pela idosa.
O caso da casa de repouso clandestina em Ribeirão Preto é um triste lembrete da vulnerabilidade de nossos idosos e da urgência de uma fiscalização rigorosa sobre os estabelecimentos que se propõem a cuidar deles. A dor e a indignação da família ecoam o clamor por mais transparência, ética e humanidade no tratamento dos mais velhos, garantindo que locais destinados a oferecer cuidado não se tornem palcos de negligência e desrespeito.
Fonte: https://g1.globo.com



