Caminhada do Silêncio em São Paulo: Memória, Justiça e a Luta Contra a Violência Estatal

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© Paulo Pinto/Agencia Brasil
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A cidade de São Paulo foi palco, em sua última edição, da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado, um evento que anualmente ressoa como um poderoso manifesto contra a impunidade e a persistência de práticas autoritárias. Centenas de pessoas, incluindo familiares de vítimas e ativistas de direitos humanos, uniram-se em um cortejo que partiu de um local emblemático da repressão ditatorial para culminar em um monumento de homenagem à memória.

Um Legado de Repressão e a Força da Memória

A concentração inicial da caminhada ocorreu em frente ao antigo prédio do DOI-Codi/SP, na Rua Tutóia, um local com profundo significado histórico. Este edifício, que operou como um dos principais centros de tortura e repressão durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), serviu como ponto de partida para a jornada silenciosa. Sob o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, o percurso seguiu pelas ruas da zona sul paulistana, acompanhado por uma discreta escolta da polícia militar, até o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, situado no Parque Ibirapuera.

Organizada pelo Movimento Vozes do Silêncio, uma iniciativa conjunta do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política, a Caminhada transcende a mera lembrança dos crimes da ditadura. Ela se configura como um alerta contundente sobre a continuidade da violência de Estado ao longo das décadas, mesmo após o processo de redemocratização do país.

Conectando o Passado ao Presente: A Persistência da Violência Estatal

Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, destacou a relevância de se debater os impactos da ditadura militar na contemporaneidade. Segundo ela, o imaginário coletivo frequentemente percebe a ditadura como um período estanque, isolado do presente, desconsiderando suas raízes e consequências duradouras. A caminhada busca precisamente romper essa visão, evidenciando como as estruturas e práticas daquele período ainda ecoam na atualidade.

A discussão vai além do reconhecimento histórico, apontando para a necessidade de fortalecimento de uma democracia que, na visão dos organizadores, ainda não é plenamente igualitária para parcelas significativas da população. Para Lorrane, uma das ferramentas essenciais na busca por memória, verdade e justiça é a implementação das 49 recomendações da Comissão Nacional da Verdade. Ela ressaltou que, desde seu lançamento, poucas ou apenas parcialmente cumpridas, indicando lentos avanços que não correspondem à profundidade das mudanças propostas para a sociedade.

A Luta Contínua pela Democracia e Justiça

Em nota, Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, enfatizou que a Caminhada do Silêncio surgiu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às constantes tentativas de apagamento da história. Ele salientou que a ditadura militar deixou um legado de impunidade que se reflete diretamente na violência estatal que ainda assola o país. A manifestação, agora em sua sexta edição, representa um chamado à sociedade para retomar o protagonismo na defesa do Estado Democrático de Direito, especialmente em tempos de ataques graves contra a democracia, quando sua proteção tem sido muitas vezes delegada apenas às mais altas instituições.

O evento contou com a participação de mais de 30 organizações da sociedade civil, movimentos sociais e entidades de direitos humanos, ampliando o coro por justiça. Este ano, um novo elemento adicionado ao debate foi a possibilidade, defendida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar a aplicação da Lei da Anistia em casos que envolvem crimes permanentes, como a ocultação de cadáver. Tal proposição reacende a esperança por avanços na responsabilização por violações de direitos humanos não prescritas.

O Manifesto: Vozes do Silêncio em Ressonância

Próximo ao encerramento, o manifesto da caminhada foi lido, traduzindo o profundo simbolismo do ato. O texto ressalta que o silêncio dos participantes não denota ausência, mas sim uma presença viva, uma memória que resiste e uma voz que ecoa nos passos de cada indivíduo que se recusa a esquecer. Partindo de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-Codi, e chegando a um monumento que insiste em lembrar, a mensagem é clara: as histórias não foram apagadas.

O manifesto afirma que os mortos e desaparecidos não pertencem apenas ao passado e não representam uma ausência, mas sim uma permanência. A caminhada, nascida da urgência de resistir quando a democracia foi abertamente ameaçada e o autoritarismo deixou de ser apenas lembrança para se tornar projeto, segue sua jornada. Ela serve como um lembrete veemente de que a ameaça não desapareceu, apenas se transformou, exigindo vigilância e mobilização constantes da sociedade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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