O Hospital Municipal Pimentas Bonsucesso, uma das principais unidades da rede pública de Guarulhos, a segunda maior cidade do estado de São Paulo, encontra-se imerso em uma profunda crise. Denúncias alarmantes de pacientes e funcionários expõem um cenário de infraestrutura precária, escassez de materiais básicos e uma grave falta de profissionais de saúde, levantando sérias preocupações sobre a qualidade e a segurança do atendimento oferecido à população.
Improvisos Alarmantes e Condições Insalubres
A gravidade da situação é evidenciada por vídeos internos gravados por funcionários, que revelam adaptações chocantes dentro da unidade. Em uma das filmagens, um espaço que deveria funcionar como banheiro foi improvisado como sala de medicação, com um vaso sanitário disfarçado sob uma cadeira. Segundo o relato de um funcionário, que preferiu manter o anonimato por receio de represálias, esse local tem sido utilizado há cerca de duas semanas para atender tanto pacientes adultos quanto crianças, expondo-os a riscos sanitários inaceitáveis.
Além disso, outros registros mostram enfermarias superlotadas e a ausência de itens essenciais. A carência de lençóis é um exemplo gritante: a equipe de enfermagem dispõe de apenas cerca de 15 lençóis para 36 pacientes, sendo forçada a priorizar os casos mais graves na hora de realizar a troca da roupa de cama, uma prática que compromete a higiene e o conforto dos internados.
Casos de Negligência e Perdas Irreparáveis
O impacto direto dessas deficiências é sentido de forma trágica por pacientes e seus familiares. A auxiliar administrativa Andressa Valdivino Santos Melo perdeu sua mãe, Maria Aparecida, de 58 anos, após ela dar entrada no hospital com insuficiência cardíaca em 21 de janeiro. Andressa relata que a mãe aguardou mais de dez horas por um leito e, chocantemente, sofreu um sangramento por três horas ao seu lado, no quarto, sem que houvesse alguém na sala de enfermagem para prestar assistência.
Outro testemunho doloroso é o de Natália Silva Bonifácio, cuja mãe, Kátia da Silva, de 47 anos, faleceu cinco dias após ser internada. Natália denuncia demora no atendimento e falta de profissionais especializados, afirmando que, embora houvesse a promessa de cinco cirurgiões, sua mãe não recebeu a atenção necessária e foi tratada como “apenas mais um número”. A paciente só recebeu atendimento especializado após ser entubada. A certidão de óbito aponta choque séptico de foco abdominal com abdômen agudo perfurado como causa da morte, e a família registrou um boletim de ocorrência para investigar o caso.
Gestão Hospitalar sob Escrutínio e Transições Contratuais
O Hospital Municipal Pimentas Bonsucesso é uma unidade de grande porte, realizando, conforme dados da prefeitura, mais de 15 mil atendimentos diários no pronto-socorro, além de cerca de 2 mil consultas ambulatoriais e uma média de 428 cirurgias por mês. A unidade conta com 144 leitos de internação e emprega pouco mais de 900 profissionais para atender a essa demanda intensa.
Desde 2021, a gestão do hospital esteve a cargo da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Bernardo do Campo, uma organização social de saúde (OSS), à qual a Prefeitura de Guarulhos repassou mais de R$ 290 milhões. Contudo, em 2024, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) reprovou o contrato entre a prefeitura e essa organização. Apesar da reprovação, um novo contrato emergencial de 12 meses foi firmado com a mesma entidade, que encerrou suas atividades nesta terça-feira (31). A partir de agora, a administração da unidade passa para outra organização social, a Univida, que receberá mais de R$ 147 milhões por um período de um ano.
Respostas Oficiais e Perspectivas de Mudança
Diante das graves denúncias, a Prefeitura de Guarulhos informou que abriu uma sindicância para apurar os casos relatados. Em nota, a administração municipal reconheceu que as situações não são pontuais, e que outras reclamações vêm sendo registradas continuamente, indicando a existência de problemas recorrentes. A gestão anterior do hospital, por sua vez, declarou que encerra o contrato sem pendências com a prefeitura.
No entanto, essa afirmação contrasta com o histórico recente: em 2024, os atendimentos no hospital chegaram a ser parcialmente suspensos – mantendo apenas os serviços de urgência e emergência – devido à falta de repasses municipais, um episódio que evidenciou a instabilidade financeira da unidade. Com a transição para a nova OSS, Univida, a expectativa é de que um novo ciclo se inicie na busca pela estabilização e melhoria dos serviços de saúde oferecidos.
A crise no Hospital Municipal Pimentas Bonsucesso de Guarulhos reflete os desafios complexos enfrentados pela saúde pública. As denúncias de infraestrutura inadequada, improvisos que comprometem a segurança e a desassistência a pacientes resultando em perdas trágicas, exigem uma resposta imediata e robusta das autoridades. A chegada de uma nova organização social para gerir o hospital representa uma oportunidade crucial para reverter o cenário de degradação. É imperativo que a Prefeitura e a nova gestão implementem ações efetivas e transparentes, garantindo que o hospital possa cumprir sua missão essencial de oferecer atendimento digno e seguro aos milhares de cidadãos que dele dependem.
Fonte: https://g1.globo.com



