Suíça Sob Vigilância: O Monitoramento de Ativistas Brasileiros Exilados e a Cumplicidade com a Ditadura

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© Jean Marc Von der Weid/Arquivo pessoal
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A memória da tortura é uma cicatriz indelével para Jean Marc Von der Weid. Exilado na Suíça após ser brutalmente detido no Brasil entre agosto de 1969 e janeiro de 1971, o estudante brasileiro-suíço não hesitou em expor os horrores da ditadura militar. Sua voz, que ecoou em diversas plataformas europeias, não apenas buscou justiça e verdade, mas também revelou uma faceta pouco conhecida das relações internacionais da época: o monitoramento e a perseguição de dissidentes brasileiros pelo próprio governo suíço, que, em nome de robustos laços econômicos, ignorou ou até mesmo facilitou a repressão.

Testemunho Horripilante e a Voz do Exílio

Jean Marc Von der Weid, um dos 70 presos políticos libertados em troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher — um episódio que marcou o sequestro diplomático mais longo no Brasil —, emergiu do cativeiro com uma missão. Sua experiência em câmaras de tortura, onde permaneceu “quase sem parar” por quatro dias, transformou-o em um incansável denunciante. A RTS, rádio e TV pública da Suíça, foi uma das primeiras a registrar seu depoimento, detalhando as técnicas cruéis empregadas pelo regime.

Entre as práticas desumanas que ele descreveu estavam o “pau de arara”, onde era pendurado pelos pés e mãos de cabeça para baixo enquanto recebia choques elétricos, golpes de cassetete e o “telefone”, que consistia em pancadas simultâneas nas orelhas. A tortura hidráulica, com água forçada no nariz, e as queimaduras de cigarro complementavam o repertório de barbárie que Jean Marc expunha, evidenciando a crueldade indiscriminada que atingia até crianças, como o caso de um menino de 14 anos com paralisia infantil torturado para fazer sua mãe falar.

A Incomoda Verdade: Monitoramento Suíço

A incansável jornada de Jean Marc pela Europa, participando de eventos, palestras e inúmeras entrevistas, visava desmascarar a narrativa do “milagre econômico” brasileiro, revelando a ditadura por trás dela. Essa mobilização, contudo, não passou despercebida nem foi bem-vista pelo governo suíço. Mantendo fortes conexões econômicas com o regime militar brasileiro, Berna sentia-se incomodada com a publicidade negativa gerada pelos exilados.

A pesquisadora Gaelle Shclier, da Universidade de Lausanne, dedicou-se a investigar a atuação de ativistas brasileiros e a resposta da diplomacia suíça. Sua pesquisa trouxe à luz relatórios que comprovam a vigilância sistemática sobre esses exilados. “Esses eventos eram monitorados pela polícia”, afirma Shclier, que teve acesso a documentos que evidenciam o acompanhamento rigoroso das atividades dos dissidentes.

Documentos Reveladores e a Conferência Vigia

Um dos achados mais significativos da pesquisa de Shclier é um relatório de 36 páginas, datado de 9 de março de 1971, redigido em francês e endereçado ao chefe da polícia de Lausanne. O documento contém a transcrição minuciosa das palestras proferidas por ativistas durante a conferência intitulada “Brasil, a democratização da tortura”. O depoimento de Jean Marc Von der Weid, com suas descrições perturbadoras da tortura, é o primeiro a ser detalhado no relatório policial suíço.

O mesmo documento revela não apenas o conteúdo das denúncias, mas também a estrutura de organização do evento. Ele descreve os dizeres dos cartazes afixados nas paredes, como “12.000 presos políticos”, “A tortura é indispensável ao poder militar” e “Apoio à luta do povo brasileiro”. Mais alarmante, o relatório lista nominalmente empresas suíças que, naquele período, beneficiavam-se diretamente da política de proximidade e colaboração econômica entre o governo da Suíça e o regime autoritário brasileiro.

Interesses Econômicos vs. Direitos Humanos

A atuação de ativistas como Jean Marc criava um contraste incômodo com os esforços de setores empresariais e do próprio governo suíço. Enquanto os exilados denunciavam atrocidades, a comunidade de negócios na Suíça orquestrava “jornadas culturais, econômicas e políticas” para divulgar uma imagem positiva do Brasil, buscando angariar o apoio da opinião pública para a ditadura. Personalidades como Roberto Campos, ex-ministro do Planejamento de Castello Branco, eram convidadas frequentemente para proferir palestras, reforçando essa narrativa.

Gabriella Lima, também pesquisadora da Universidade de Lausanne, corrobora essa perspectiva, explicando que os movimentos de solidariedade aos exilados brasileiros representavam uma ameaça concreta aos interesses suíços no Brasil. Havia um temor de que a opinião pública suíça, ao tomar conhecimento das violações, exigisse boicotes econômicos, um cenário que já havia ocorrido em relação à África do Sul, por exemplo.

Cumplicidade Velada: A Suíça Sabia

A análise dos relatórios policiais e diplomáticos por Gaelle Shclier não deixa dúvidas: o governo suíço não se limitou a monitorar os ativistas brasileiros; tinha pleno conhecimento das violações e da brutalidade empregada pelo regime. “A gente vê em relatórios e em cartas que eles sabem que a polícia [brasileira] em geral é muito violenta. Eles tinham conhecimento do que estava acontecendo”, reitera a pesquisadora.

Essa cumplicidade é confirmada por correspondências diplomáticas. Um documento de outubro de 1973, intitulado “Tortura no Brasil”, redigido em francês, mostra o cônsul suíço no Rio de Janeiro, Marcel Guelat, informando ao Departamento de Política do Ministério das Relações Exteriores de seu país sobre os crimes de Estado cometidos. O documento detalha que, além do notório Dops (Departamento de Ordem Política e Social), unidades do exército, encarregadas de processos subversivos, também recorriam à tortura, comprovando que o conhecimento sobre as atrocidades era oficial e institucional.

As revelações sobre o monitoramento de exilados brasileiros na Suíça e o conhecimento do governo suíço sobre as torturas praticadas pela ditadura militar no Brasil jogam luz sobre uma página complexa da história. Elas expõem a tensão entre os interesses econômicos e a defesa dos direitos humanos, e a dura realidade enfrentada por aqueles que, como Jean Marc Von der Weid, ousaram desafiar regimes autoritários, mesmo em solo estrangeiro, contando apenas com a força de seu testemunho para lutar pela verdade e pela justiça.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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