O filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle, afirmou que o conceito de fascismo continua atual para compreender formas contemporâneas de autoritarismo, especialmente no Brasil. Em entrevista à Agência Brasil, ele defendeu que a sociedade e a academia não tenham receio de identificar e debater o fenômeno.
Autor do livro A Ameaça Interna: Psicanálise dos Novos Fascismos Globais, Safatle argumenta que práticas de violência, exclusão e segregação historicamente associadas ao fascismo foram incorporadas ao cotidiano de diversas democracias. Segundo ele, essas estruturas atingem principalmente populações vulneráveis e têm raízes em processos coloniais que ainda influenciam a organização social e política.
Para o filósofo, o fascismo contemporâneo está diretamente ligado à extrema direita e se manifesta por meio da naturalização da violência, da indiferença ao sofrimento coletivo e da aceitação de crises sociais, ambientais e humanitárias como algo inevitável.
Safatle também avalia que a adesão a discursos autoritários não ocorre apenas por desinformação ou radicalização ideológica. Na visão dele, muitos apoiadores fazem uma escolha considerada racional diante de um cenário de insegurança e escassez, acreditando que a própria sobrevivência depende da exclusão de outros grupos da sociedade.
Ao analisar o Brasil, o professor destaca que o país carrega uma longa tradição de desigualdade e violência institucional, o que dificulta a construção de uma democracia plenamente inclusiva. Ele cita a permanência de estruturas que oferecem proteção a determinados setores sociais enquanto mantêm outros expostos à exclusão e à vulnerabilidade.
Segundo Safatle, enfrentar esse cenário exige compreender as origens do problema, fortalecer a solidariedade social e construir alternativas políticas capazes de combater a normalização do autoritarismo.
O filósofo participa do debate “Novos Fascismos Globais”, durante a programação da Feira do Livro, em São Paulo.
Fonte: ABN


