
Organizações criminosas enviam pasta-base ou cocaína ocultada quimicamente para refino na Europa. Laboratórios clandestinos podem processar até 200 quilos da droga por dia, segundo agência europeia.
A Europa está assumindo um novo papel no tráfico internacional de cocaína: além de mercado consumidor, o continente se tornou um importante centro de processamento da droga. Investigações internacionais apontam que organizações criminosas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC), enviam carregamentos da América Latina em pasta-base ou quimicamente ocultados em produtos comerciais para que a extração final seja realizada em laboratórios clandestinos europeus.
Segundo a Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA), países do bloco desmantelaram pelo menos 42 laboratórios utilizados no processamento de cocaína em pó em 2024, um aumento de 23,5% em relação ao ano anterior. Desse total, 24 estavam na Holanda, considerada o principal polo europeu dessa atividade.
As instalações identificadas podem operar em escala industrial. De acordo com o analista científico da EUDA, Laurent Laniel, alguns laboratórios têm capacidade para recuperar até 200 quilos de cocaína por dia.
Como funciona a nova estratégia
Em vez de transportar exclusivamente cocaína refinada, os traficantes enviam pasta-base ou incorporam quimicamente a substância a materiais como plásticos, resinas e produtos comerciais. Depois da chegada aos portos europeus, estruturas clandestinas fazem a extração e o processamento.
A estratégia pode reduzir os prejuízos em caso de apreensão e transferir parte dos custos e riscos da operação para o território europeu. Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal concentram investigações sobre laboratórios, enquanto os portos de Antuérpia e Roterdã permanecem entre as principais portas de entrada da droga.
Infográfico: Rotina ‘industrial’ de cocaína na Europa
Operações revelam escala industrial
Na Espanha, uma ação envolvendo a Guarda Civil, a Europol e a agência antidrogas dos Estados Unidos identificou produtos químicos utilizados no processamento da cocaína em uma instalação clandestina nos arredores de Madri.
Em Portugal, a Operação Pacoba desmantelou um laboratório com capacidade industrial e resultou na prisão de sete pessoas, além da apreensão de 1,5 tonelada de cocaína e produtos químicos.
No Brasil, a Polícia Federal investigou uma remessa de produtos de higiene pessoal que escondia cocaína em frascos de xampu destinados à Europa. A operação levou à apreensão de 403 litros do produto que seriam enviados a Berlim, com escala em Lisboa.
Infográfico: tráfico internacional de cocaína para a Europa
PCC e a conexão brasileira
O PCC aparece nas investigações como um dos principais fornecedores de cocaína para o mercado europeu. Até o momento, porém, não há evidências apresentadas no material de que integrantes da facção estejam diretamente ligados ao processamento da droga nos laboratórios europeus. Essa etapa seria conduzida por outros grupos criminosos envolvidos na cadeia de distribuição.

Um levantamento do Ministério Público de São Paulo indica que a organização expandiu sua presença para pelo menos 28 países, com atividades relacionadas ao tráfico de drogas e armas e à lavagem de dinheiro.
Especialistas avaliam que o deslocamento do processamento para a Europa segue uma lógica econômica: reduzir estruturas de refino na origem e distribuir custos e riscos entre diferentes grupos e territórios.
Infográfico: tráfico internacional de cocaína para a Europa
Fotos: Arte/Reprodução
Cooperação internacional
A Polícia Federal afirma que acompanha a evolução das rotas e dos métodos utilizados pelo narcotráfico, incluindo novas formas de ocultação química e modalidades alternativas de transporte marítimo.
A corporação mantém cooperação com a Europol e o Centro de Análise e Operações Marítimas — Narcóticos (MAOC-N), além de autoridades policiais de diversos países. O objetivo é identificar responsáveis financeiros, embarcações, operadores logísticos e estruturas de lavagem de dinheiro, atingindo toda a cadeia criminosa.
O avanço dos laboratórios clandestinos reforça uma mudança no cenário internacional: a Europa deixa de ser apenas destino da cocaína e passa a integrar, cada vez mais, as etapas de processamento e preparação da droga para distribuição
Fonte: G1
- Organizações criminosas enviam pasta-base ou cocaína ocultada quimicamente para refino na Europa. Laboratórios clandestinos podem processar até 200 quilos da droga por dia, segundo agência europeia.
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