De rachadinhas a bets: os escândalos e as investigações envolvendo Flávio Bolsonaro

Os casos, as suspeitas e as versões apresentadas pela defesa.

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  • Flávio Bolsonaro, rachadinhas, Dark Horse, Daniel Vorcaro, Banco Master, bets, Willer Tomaz, Polícia Federal, investigações, disputas judiciais
Dra Marcela Paiva

Senador e pré-candidato à Presidência acumula controvérsias e disputas judiciais; casos incluem suspeitas sobre gabinete na Alerj, financiamento de filme sobre Jair Bolsonaro e possíveis ligações com apostas esportivas

Ao longo de 26 anos de vida pública, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, esteve no centro de investigações, acusações e disputas judiciais. Os episódios envolvem desde suspeitas de um esquema de rachadinhas em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) até apurações sobre o financiamento de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e possíveis vínculos com o setor de apostas esportivas.

Enquanto o caso das rachadinhas teve provas anuladas por decisões de tribunais superiores, outras frentes de investigação continuam em andamento. Entre elas estão as apurações sobre recursos destinados à produção do filme Dark Horse, a relação com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e possíveis conexões com empresas de apostas online.

As suspeitas estão em diferentes estágios de apuração e não representam, por si só, comprovação de crimes. Flávio Bolsonaro nega irregularidades nos casos em que é citado. Confira os principais episódios e as manifestações do senador e de sua defesa.

Caso das rachadinhas na Alerj

As investigações sobre o gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro começaram após relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificarem movimentações consideradas atípicas nas contas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do parlamentar.

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) investigou a hipótese de um esquema de rachadinha, prática em que funcionários públicos devolvem parte dos salários recebidos. As apurações também abrangeram operações imobiliárias realizadas com dinheiro em espécie e a contratação de familiares do ex-policial Adriano da Nóbrega.

Adriano, apontado como integrante de um grupo de extermínio e líder do chamado Escritório do Crime, foi homenageado duas vezes por Flávio na Alerj. O senador também empregou em seu gabinete a mãe e a então esposa do ex-policial.

Outra linha de investigação envolveu uma franquia de uma rede de chocolates da qual Flávio era sócio. Os promotores suspeitavam que o negócio pudesse ter sido utilizado para lavar recursos provenientes do suposto esquema, diante de depósitos em dinheiro vivo considerados atípicos e de questionamentos sobre a origem dos valores empregados na aquisição da franquia.

Posteriormente, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) anularam provas obtidas durante as investigações. As acusações foram arquivadas, em meio a decisões que reconheceram irregularidades processuais, incluindo questões relacionadas ao foro do parlamentar e à validade de atos judiciais.

O que diz Flávio Bolsonaro: o senador afirmou que eventuais irregularidades cometidas por Queiroz teriam ocorrido sem seu conhecimento. Também sustentou que depósitos em espécie eram comuns no varejo, que as operações imobiliárias foram legais e declaradas e que a contratação das familiares de Adriano ocorreu por indicação do ex-assessor. Flávio afirma ainda que sua proximidade com Adriano antecedeu as acusações contra o ex-policial e nega ter participado ou apoiado organizações criminosas.

Investigação sobre o filme Dark Horse

Uma das frentes mais recentes envolve o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. O caso é investigado no STF e inclui suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas a aportes milionários atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro.

Segundo documentos analisados pela Polícia Federal (PF), Flávio teria atuado diretamente na captação de recursos para o filme e mantido contato frequente com o empresário. Os investigadores procuram esclarecer a origem e o destino dos valores, incluindo transferências ao exterior destinadas ao projeto.

A PF identificou uma diferença expressiva entre os recursos enviados para fora do país e aqueles que teriam retornado ao Brasil para financiar a produção. Conforme os elementos da investigação, mais de US$ 12 milhões deixaram o país, enquanto apenas US$ 2,8 milhões tiveram ingresso registrado no Brasil.

Mensagens obtidas pelos investigadores também registrariam cobranças feitas pelo senador a Vorcaro sobre a liberação de recursos. A apuração inclui encontros, viagens e o uso de aeronaves ligadas ao empresário.

O que diz Flávio Bolsonaro: inicialmente, o senador negou a participação de Vorcaro no financiamento. Depois, admitiu ter procurado o empresário como investidor privado. Flávio afirma que o filme foi financiado exclusivamente com recursos particulares, nega irregularidades e diz defender transparência na apuração. Segundo sua versão, os contatos posteriores tiveram como objetivo encerrar a relação comercial ou buscar novos investidores.

Relação com Daniel Vorcaro e o Banco Master

A relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro também passou a ser examinada para além do financiamento do filme. Reportagens e documentos analisados pela PF apontam contatos frequentes entre os dois, incluindo viagens e tratativas comerciais.

Os investigadores apuram se operações financeiras ligadas ao filme ou a outras iniciativas podem ter sido utilizadas para movimentar recursos de forma irregular. A investigação busca esclarecer se o senador teve participação ou obteve algum benefício em estruturas relacionadas ao empresário.

O que diz Flávio Bolsonaro: o senador afirma que sua relação com Vorcaro se limitou à tentativa de captar recursos privados para Dark Horse e nega ter cometido ilegalidades.

Financiamento de mansão em Brasília

A compra de uma mansão em Brasília, em 2021, também entrou no conjunto de questionamentos envolvendo o senador. O imóvel, avaliado em R$ 6 milhões, teve parte do valor financiada pelo Banco de Brasília (BRB), que concedeu um empréstimo de R$ 3,1 milhões.

O financiamento passou a ser examinado no contexto das investigações sobre o Banco Master e sua relação com o BRB. O contrato previa pagamento em 360 parcelas e juros anuais de 3,71%, abaixo da média praticada pela instituição naquele período.

A apuração ganhou força após uma auditoria independente encomendada pelo próprio BRB apontar possíveis irregularidades na operação. O relatório foi encaminhado à Polícia Federal em fevereiro de 2026 e passou a integrar os elementos analisados pelos investigadores.

Embora o contrato previsse prazo de até 30 anos, o empréstimo foi quitado integralmente cerca de três anos depois.

O que diz Flávio Bolsonaro: quando a compra veio a público, o senador afirmou ter capacidade financeira para assumir o financiamento, citando o salário parlamentar e outras fontes de renda. Sua defesa sustenta que a regularidade da operação já foi reconhecida judicialmente, com decisão transitada em julgado, e afirma que o contrato foi legal, não gerou prejuízo ao banco e está quitado. Flávio também declarou que a aquisição foi viabilizada pela venda de outro imóvel e por recursos provenientes de sua participação em uma rede de lojas de chocolates.

Suspeitas de ligação com esquema de apostas esportivas

Outro inquérito em andamento no STF examina possíveis vínculos de Flávio Bolsonaro com o advogado Willer Tomaz e com empresas do setor de apostas online. Tomaz aparece em diferentes apurações da Polícia Federal, inclusive em investigações relacionadas a suspeitas de fraudes no INSS.

AgênciaModerna

No caso envolvendo apostas, a investigação inclui suspeitas de lavagem de dinheiro e de eventual participação oculta do senador na empresa Best Bet, licenciada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).

Segundo a PF, foram identificados registros de viagens custeadas por empresas ligadas a Tomaz e documentos que apontariam Flávio como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira e controlada pelo advogado.

A condição permitiria acesso ampliado à administração da conta, incluindo consulta a saldos, extratos e movimentações. Em maio de 2025, o banco teria recebido um pedido para retirar o nome do senador do cadastro.

Os investigadores também mapearam pelo menos cinco viagens internacionais realizadas pelos dois em 2025. Documentos analisados pela PF indicariam que empresas associadas a Tomaz custearam ao menos parte das passagens aéreas utilizadas por Flávio e integrantes da família Bolsonaro.

O que dizem os envolvidos: Flávio nega ter mantido conta na qual Willer Tomaz ou empresas ligadas a ele figurassem como usuários master. Sua assessoria classificou como falsas as afirmações nesse sentido. Tomaz, por sua vez, afirma que mantém apenas uma relação de amizade com o senador, nega a existência de negócios ou contas compartilhadas e diz que as viagens tiveram caráter exclusivamente pessoal, sem contrapartidas.

Controvérsias envolvendo milicianos

As suspeitas sobre possíveis relações com pessoas ligadas a milícias não se restringem ao caso de Adriano da Nóbrega. Em outro episódio, reportagens apontaram que uma assessora do gabinete de Flávio manteve conversas com Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, condenado por participação no assassinato da vereadora Marielle Franco.

As conversas teriam abordado a destinação de uma emenda parlamentar de R$ 199 mil para um projeto esportivo no Rio de Janeiro. O episódio provocou questionamentos políticos sobre a relação do senador com pessoas associadas a investigações sobre milícias.

Flávio, contudo, não foi denunciado nem condenado por participação em organizações milicianas.

O que diz Flávio Bolsonaro: o senador nega qualquer vínculo com milícias. Sobre a emenda, afirma que os recursos foram destinados de acordo com a legislação e com critérios técnicos do Ministério do Esporte. Sua assessoria acrescenta que a execução cabe à entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

Disputa por imóvel em ilha de Angra dos Reis

Uma disputa patrimonial envolvendo uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro, também passou a envolver o nome de Flávio Bolsonaro.

O jogador Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões no imóvel e sustenta que perdeu seus direitos sobre a propriedade depois de se recusar a vendê-la ao senador. Segundo o atleta, Flávio teria atuado em conjunto com Willer Tomaz para viabilizar a transferência dos direitos de ocupação da área.

A Polícia Federal informou que incluiria a apuração sobre a disputa no mesmo inquérito que examina as relações entre Flávio e Tomaz. A medida foi anunciada após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarar, em 21 de outubro, que pediria à PF uma investigação sobre o episódio.

A controvérsia tramita na Justiça há anos. Willer Tomaz afirma que sua empresa adquiriu legalmente os direitos sobre a propriedade e alega que Richarlison negociou com pessoas sem legitimidade para vender o imóvel. Em vídeo publicado nas redes sociais, o advogado declarou que o jogador teria comprado a ilha de ocupantes sem direitos sobre a área e afirmou possuir escritura de compra e venda.

Uma das ações relacionadas ao caso foi arquivada em janeiro de 2026. Richarlison, porém, afirma que continuará buscando reparação pelos valores investidos.

O que diz Flávio Bolsonaro: o senador nega envolvimento na disputa patrimonial. Embora tenha visitado o imóvel e sido citado como testemunha no processo, afirma não ter vínculo comercial com a propriedade nem participação na aquisição dos direitos de ocupação.

Em que estágio estão as investigações?

Os episódios envolvendo Flávio Bolsonaro têm situações jurídicas distintas. O caso das rachadinhas terminou com o arquivamento das acusações após a anulação de provas por decisões judiciais.

Já as apurações sobre o financiamento de Dark Horse, a relação com Daniel Vorcaro, a compra da mansão em Brasília e os possíveis vínculos com empresas de apostas seguem em investigação, conforme as informações apresentadas. Até o momento descrito, esses casos não têm conclusão judicial definitiva que comprove as suspeitas.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades nos episódios e sua defesa contesta as acusações. O andamento dos inquéritos deverá esclarecer se os elementos reunidos pelos investigadores sustentam eventuais responsabilizações.

Fonte: IG Notícias

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