Levantamento aponta 92 casos de CACs ligados ao crime organizado em 10 anos no Brasil

Levantamento expõe desafios na fiscalização de armas e no combate ao crime organizado.

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Dra Marcela Paiva

Estudo do Instituto Sou da Paz identificou ocorrências em 21 estados entre 2016 e outubro de 2026; São Paulo lidera com 18 casos envolvendo armas e munições.

m levantamento do Instituto Sou da Paz identificou 92 casos de envolvimento de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) com organizações criminosas no Brasil entre 2016 e outubro de 2026. Os registros foram identificados em 21 estados e envolvem grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), milícias e quadrilhas especializadas em roubos a bancos.

São Paulo lidera a lista, com 18 ocorrências, seguido pelo Espírito Santo, com 11, e pelo Rio de Janeiro, com dez. O estudo analisou processos judiciais, boletins de ocorrência, inquéritos policiais e reportagens publicadas ao longo da última década.

Segundo Bruno Langeani, consultor sênior do instituto, foram identificados dois padrões principais: pessoas com registro de CAC que compram armas e munições legalmente para depois desviá-las a criminosos e integrantes de facções que obtêm certificados em nome próprio, inclusive com documentos falsos, para adquirir armamentos.

Casos em diferentes regiões

Entre os episódios citados está o de Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, conhecido como Léo Bode, apontado por investigadores como liderança do Comando Vermelho no interior paulista. Documentos analisados pelo instituto indicam que ele possuía registros de armas emitidos pelo Exército.

Em outro caso, Eduardo Bazzana, presidente de um clube de tiro em Americana, no interior de São Paulo, foi preso em 2025 sob suspeita de fornecer armas, carregadores e munições ao Comando Vermelho. A defesa nega as acusações.

O levantamento também menciona investigações envolvendo integrantes do PCC, milicianos e grupos criminosos em estados como Minas Gerais, Espírito Santo, Paraíba e Bahia.

Mudanças nas regras e fiscalização

O estudo aponta que a abrangência geográfica dos casos aumentou ao longo dos anos. Segundo Langeani, os registros públicos passaram de seis estados entre 2016 e 2019 para 20 entre 2023 e 2026, embora o levantamento geral tenha identificado ocorrências em 21 unidades da Federação.

Entre 2019 e 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, normas federais ampliaram os limites para aquisição de armas e munições por CACs. Em 2023, o governo Lula revisou parte dessas regras e reduziu os limites de compra.

AgênciaModerna

A fiscalização dos registros e das atividades dos CACs, antes sob responsabilidade do Exército, passou por mudanças e teve a Polícia Federal como responsável a partir de 2025, segundo o levantamento.

Materiais apreendidos durante operação “Ludíbrio” em 2022 em Uberaba. — Foto: Polícia Federal/Divulgação

O Sou da Paz ressalta que os 92 casos correspondem apenas a ocorrências que se tornaram públicas. Por isso, o número não representa necessariamente a dimensão total do problema no país.

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que apurava os dados. O governo do Espírito Santo citou operações de combate ao comércio ilegal de armas. A Polícia Federal informou que não poderia responder dentro do prazo solicitado, enquanto o Exército afirmou que preparava um posicionamento. A Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro não havia se manifestado até a publicação da reportagem.

Armas foram apreendidas em Campina Grande — Foto: TV Paraíba
Fonte: G1
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