A citricultura global enfrenta um de seus maiores desafios com o avanço incessante do greening, uma doença bacteriana devastadora que ameaça a sustentabilidade dos pomares de laranja em todo o mundo. Em resposta a essa crise, uma iniciativa sem precedentes foi formalizada em São Paulo: a criação do Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura (CPA Citros). Este projeto ambicioso é fruto de uma parceria público-privada robusta, que une o governo do estado de São Paulo, universidades de múltiplos países, fundações e outros órgãos setoriais. Com um investimento previsto de R$ 90 milhões ao longo de cinco anos, o convênio visa impulsionar a pesquisa aplicada, a transferência de tecnologia e a educação, buscando soluções eficazes para mitigar os impactos do greening e salvaguardar a produção citrícola, que é vital para a economia e para a mesa dos consumidores.
O greening e seu avanço implacável na citricultura
A doença que amarela pomares e impacta a economia
O greening, cientificamente conhecido como Huanglongbing (HLB), é uma enfermidade causada por uma bactéria transmitida por um inseto vetor, o psilídeo. Considerado o maior flagelo da citricultura mundial, seus sintomas são facilmente identificáveis, mas de difícil controle. As folhas das plantas infectadas adquirem um aspecto amarelado, muitas vezes de forma assimétrica, enquanto as flores podem secar e murchar prematuramente. Os frutos das árvores doentes tornam-se pequenos, deformados, com sabor amargo e caem antes do tempo, inviabilizando sua comercialização. A doença não apenas reduz drasticamente a produtividade, mas também a qualidade da fruta, levando à morte gradual das árvores em poucos anos.
A disseminação do greening tem alterado significativamente o mapa da citricultura no Brasil, um dos maiores produtores e exportadores de suco de laranja do planeta. Um levantamento recente do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), entidade mantida por citricultores e indústrias de suco no estado de São Paulo, revelou que a região de Limeira, no interior paulista, mantém a liderança no ranking das áreas mais atingidas pelo greening no cinturão citrícola que abrange São Paulo e Minas Gerais. Em 2024, a incidência da doença nessa região alcançou impressionantes 79,38%, um aumento em relação aos 73,87% registrados em 2023. Essa escalada nos índices de infecção gera prejuízos incalculáveis para os pomares e, combinada com fatores climáticos como as altas temperaturas, impacta diretamente os preços da fruta e do suco que chegam ao consumidor final.
A frente unida da pesquisa: R$ 90 milhões contra a praga
Parceria global em busca de soluções inovadoras
A resposta à ameaça do greening materializa-se na criação do CPA Citros, um centro de pesquisa que busca desenvolver e aplicar estratégias inovadoras no combate à doença. O acordo de cooperação, que formaliza esta aliança estratégica, foi assinado na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), campus da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, um dos berços da pesquisa agrícola brasileira. O evento de assinatura reuniu representantes da universidade, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), do Fundecitrus, de produtores do setor e de outros órgãos governamentais e setoriais, demonstrando o compromisso conjunto em enfrentar essa praga.
O convênio estabelece uma rede de colaboração internacional sem precedentes, interligando 19 instituições e 76 departamentos científicos de sete países distintos: Brasil, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Austrália. Essa amplitude geográfica e institucional reflete a complexidade do desafio imposto pelo greening, que exige uma abordagem multidisciplinar e global. O investimento de R$ 90 milhões será direcionado para pesquisa de ponta, buscando novas variedades de citros mais resistentes, métodos de controle biológico mais eficientes para o psilídeo, tecnologias de detecção precoce da bactéria e práticas de manejo integrado que possam mitigar a progressão da doença nos pomares. Além da pesquisa, a iniciativa prevê um forte componente de transferência de tecnologia para os produtores e programas de educação, visando capacitar a força de trabalho do setor e disseminar as melhores práticas de combate ao greening.
O impacto econômico: do pomar à mesa do consumidor
Prejuízos e a jornada da laranja pelo Brasil
Os reflexos da devastação causada pelo greening são sentidos diretamente no campo e, consequentemente, no bolso do consumidor. Lucas Eduardo Boschiero, cuja família cultiva laranjas há três gerações, é um dos muitos produtores rurais que enfrentam a dura realidade da praga. Em sua propriedade, uma área expressiva de 100 mil plantas sofreu infestação de aproximadamente 80% pelo greening. Esse cenário o obriga a buscar laranjas em outros estados, como Bahia, Minas Gerais, Sergipe e Goiás, tanto para a produção de suco quanto para a venda in natura, elevando os custos de produção e logística.
A escassez de laranjas de qualidade e o aumento dos custos de produção, impulsionados pelo greening e por outros fatores como o calor excessivo, têm provocado uma disparada nos preços da fruta. O que antes era vendido a R$ 0,80 por quilo para a indústria de sucos, agora custa R$ 2, um aumento de 150%. Para o varejo, que exige frutas maiores e mais bonitas para as gôndolas, o cenário é ainda mais dramático: o preço passou de R$ 1 para R$ 3 por quilo, um acréscimo de 200%. Essa elevação de custos se reflete na ponta final da cadeia. Elias Staiguer, proprietário de um restaurante que antes era uma plantação de laranjas dizimada pelo greening, agora precisa comprar a fruta de outros produtores da região para sua fábrica de sucos. Ele relata o impacto direto: “A laranja vem de mais longe, ela está mais cara e tem o frete ainda para impactar mais no valor”, evidenciando como a logística se soma ao custo da fruta, resultando em um produto final mais caro para os consumidores.
Perspectivas futuras e o custo da resistência
A ameaça do greening à citricultura global é um desafio complexo e multifacetado, com implicações ambientais, sociais e econômicas de grande alcance. A magnitude da devastação nos pomares brasileiros e o impacto direto nos preços da laranja e seus derivados para o consumidor sublinham a urgência de ações coordenadas. A iniciativa do CPA Citros, com seu investimento robusto de R$ 90 milhões e a abrangência de sua colaboração internacional, representa uma luz de esperança nesse cenário. Ao focar na pesquisa aplicada, na transferência de tecnologia e na educação, o convênio busca não apenas combater a doença no presente, mas também construir um futuro mais resiliente para a citricultura. O sucesso dessa empreitada dependerá da persistência na inovação e da efetividade em levar as soluções do laboratório para o campo, protegendo os produtores, a indústria e garantindo que a laranja continue a ser um fruto acessível e abundante.
Perguntas frequentes sobre o greening e o CPA Citros
O que é o greening e quais seus principais sintomas?
O greening, ou Huanglongbing (HLB), é uma doença bacteriana altamente destrutiva para os citros, transmitida por um inseto, o psilídeo. Os principais sintomas incluem o amarelamento assimétrico das folhas, secagem e murchamento das flores, além de frutos pequenos, deformados, com sabor amargo e queda prematura. A doença leva à morte gradual da planta.
Qual o objetivo do CPA Citros e qual o investimento previsto?
O CPA Citros (Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura) tem como objetivo principal desenvolver e aplicar estratégias inovadoras para combater o greening e outras doenças da citricultura. O convênio prevê um investimento de R$ 90 milhões ao longo de cinco anos, destinado a pesquisa, transferência de tecnologia e educação.
Como o greening impacta o preço da laranja para o consumidor?
O greening causa grandes prejuízos nos pomares, reduzindo a produção e a qualidade da fruta. A menor oferta e o aumento dos custos de produção, incluindo a necessidade de buscar laranjas em outras regiões e o frete, levam a uma elevação significativa dos preços da fruta e de seus derivados (como o suco) no mercado, impactando diretamente o custo final para o consumidor.
Quais regiões do Brasil são mais afetadas pelo greening?
De acordo com o Fundecitrus, a região de Limeira, no cinturão citrícola de São Paulo e Minas Gerais, é atualmente a mais afetada pelo greening, com uma incidência de quase 80% em 2024. Produtores também precisam buscar matéria-prima em estados como Bahia, Minas Gerais, Sergipe e Goiás devido à infestação em suas lavouras.
Mantenha-se informado sobre os avanços no combate ao greening e o futuro da citricultura brasileira, acompanhando as últimas notícias sobre inovação e sustentabilidade na produção de frutas.
Fonte: https://g1.globo.com



