
Levantamento mostra que 65,3% dos argentinos ficam sem dinheiro antes do dia 20 e recorrem a empréstimos, ajuda familiar e cortes nas despesas básicas.
A renda de dois em cada três argentinos não dura até o fim do mês. Segundo pesquisa da consultoria Zentrix, 65,3% da população fica sem dinheiro antes do dia 20. Entre os mais pobres, o índice ultrapassa 83%. Até na classe alta há dificuldades: apenas 61,9% conseguem chegar ao fim do mês e ainda poupar.
O levantamento faz parte do relatório Monitor de Opinião Pública e ouviu 1.438 pessoas em todo o país. De acordo com a consultoria, a duração do dinheiro varia conforme a classe social. Entre os argentinos com menos de 40 anos, 72% afirmam ficar sem recursos antes do fim do mês.
Os resultados provocaram reação do presidente Javier Milei, que questionou como as pessoas conseguem viver depois que o dinheiro acaba. Para Claudio Montiel, diretor da Zentrix, a resposta está no endividamento: mais da metade dos entrevistados pegou dinheiro emprestado nos seis meses anteriores à pesquisa.
Segundo a economista Mercedes D’Alessandro, muitas famílias recorrem a compras fiadas, ajuda de parentes, atraso no pagamento de contas e redução da qualidade da alimentação para enfrentar as dificuldades.
Milei é criticado por questionar pesquisa
D’Alessandro também lembrou que Milei relatou em seu livro El camino del libertario dificuldades financeiras enfrentadas após perder o emprego. Na ocasião, segundo o relato do presidente, ele precisou administrar a indenização recebida durante quatro anos e restringir os gastos ao equivalente a uma pizza por dia.
Para a economista, a reação do presidente revela um contraste entre sua experiência pessoal e a forma como trata as dificuldades enfrentadas por outros argentinos. Montiel também criticou a postura de Milei e afirmou que há uma distância entre a realidade vivida pela população e a visão do governo.
O economista Martín Kalos, da consultoria EPyCA, classificou a reação como uma negação do problema. Na avaliação dele, reconhecer as dificuldades é essencial para formular políticas públicas capazes de enfrentá-las.
Já Juan Massot pondera que é necessário diferenciar a percepção dos entrevistados dos indicadores econômicos objetivos. Segundo ele, dizer que o dinheiro acaba no dia 20 pode expressar a sensação de aperto financeiro e a necessidade de abrir mão de compras e atividades de lazer.
Massot ressalta, porém, que essa interpretação não elimina os problemas econômicos enfrentados pelas famílias. Ele também defende cautela na leitura dos dados para evitar diagnósticos equivocados.

Inadimplência cresce na Argentina
Um dos indicadores que ajudam a dimensionar a pressão financeira sobre as famílias é o aumento da inadimplência. Dados do Banco Central argentino mostram que 12,94% do crédito bancário concedido às famílias estava em situação irregular em julho de 2026, quase o dobro dos 6,6% registrados em agosto de 2025. Em agosto de 2026, o índice recuou ligeiramente para 12,81%.
Outro ponto de debate é o cálculo da cesta básica alimentar. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), a composição do indicador tem como referência pesquisas de despesas familiares realizadas entre 1996 e 1997, posteriormente validadas com dados de 2004 e 2005. Os preços são atualizados mensalmente, mas os padrões de consumo usados no cálculo são antigos.
Apesar das críticas à metodologia dos indicadores, especialistas destacam que as dificuldades econômicas argentinas antecedem o governo Milei. Massot aponta que o PIB per capita apresenta tendência de queda há cerca de 15 anos.
As perspectivas de melhora também são limitadas. Para Kalos, mesmo que a renda das famílias aumente temporariamente, parte dos recursos deverá ser usada para quitar dívidas atrasadas, restringindo a recuperação do consumo.
Fonte IG Notícias



