Em um cenário automotivo global dominado por grandes marcas, o Brasil produziu, em meados da década de 1970, uma joia de exclusividade e sofisticação: o <b>Concorde</b>. Este automóvel, frequentemente comparado a ícones de luxo como o Rolls-Royce, completa 50 anos em 2026, celebrando uma história de paixão e engenharia artesanal. Com apenas 25 unidades fabricadas sob encomenda, o <b>Concorde</b> é um testemunho da capacidade criativa nacional, e sua trajetória será honrada como destaque no 11º Encontro Brasileiro de Autos Antigos (EBAA), que ocorrerá entre 4 e 7 de junho em Águas de Lindóia (SP).
O Nascimento de um Sonho Inspirado em Lendas
A concepção do <b>Concorde</b> remonta a 1974, quando o colecionador João Storani deu vida a um projeto pessoal ambicioso. Em Jundiaí (SP), e posteriormente em Vinhedo (SP), Storani dedicou-se a criar um veículo que remetesse à opulência e às linhas clássicas dos automóveis das décadas de 1920 e 1930, buscando inspiração em modelos lendários como Auburn, Cord e Duesenberg. O nome <b>Concorde</b>, uma homenagem à icônica Praça da Concórdia em Paris, ressoava com a grandiosidade europeia, embora tenha coincidido com o lançamento do famoso jato supersônico franco-britânico de mesmo nome, um marco da aviação daquela época.
A iniciativa de Storani ganhou força em um período particular da história brasileira. O fechamento das importações de veículos, uma política governamental em vigor por décadas, criou uma lacuna no mercado para automóveis de alto padrão. Enxergando essa oportunidade, João Storani, com o apoio de amigos como o empresário Eduardo Matarazzo, decidiu apresentar seu projeto ao público. O carro fez sua estreia em 1976, no 10º Salão do Automóvel, gerando uma repercussão imediata e expressiva, tanto no Brasil quanto no exterior, e consolidando a visão de que havia espaço para um produto nacional tão diferenciado.
Engenharia Artesanal e Exclusividade Sem Precedentes
O que distinguia o <b>Concorde</b> era sua abordagem de engenharia e design, combinando a robustez da mecânica nacional com um luxo artesanal. Sua carroceria era moldada em fibra de vidro, um material inovador para a época, e assentava sobre um chassi próprio, reforçado em formato de “X” e notavelmente mais longo – 40 centímetros a mais que o Ford Galaxie. A mecânica, desenvolvida com autorização oficial da Ford, empregava componentes como motor, câmbio automático, diferencial e suspensão do Galaxie/Landau, enquanto uma versão com câmbio manual dispunha da caixa de quatro marchas do Ford Maverick GT.
No interior, o requinte era evidenciado pelo acabamento em couro legítimo e o painel em jacarandá. Essa filosofia de produção artesanal garantia que "nenhum <b>Concorde</b> seria exatamente igual ao outro", como destacou Renato Storani, neto do criador. Cada cliente tinha a flexibilidade de personalizar acabamentos, resultando em veículos únicos. Essa visão, de fato, antecipava a tendência dos carros retrô que só se popularizaria décadas depois. O próprio João Storani, em entrevista de 1978 ao Correio Popular, comparou seu modelo de cinco lugares a um Rolls-Royce, reforçando a ambição e o posicionamento de luxo do veículo no mercado. O <b>Concorde</b> ainda surpreendia por seu consumo de combustível mais eficiente que o Galaxie/Landau, com um peso aproximado de 1,5 toneladas e dimensões imponentes: 5,20 m de comprimento, 1,80 m de largura e uma distância entre eixos de 3,50 m.
Um Legado de Raridade e Inovação
A produção limitada a apenas 25 unidades ao longo de sua história – fabricadas sempre sob encomenda – reflete o altíssimo custo do <b>Concorde</b>, que na época superava em 30% a 40% o valor de um Ford Landau. Essa exclusividade se traduz na raridade atual do modelo: 16 exemplares ainda residem no Brasil, seis foram para os Estados Unidos (com um já retornado ao país), e três foram modificados nos anos 90, dando origem a um novo automóvel. A meticulosa atenção aos detalhes e o preço elevado o estabeleceram como um carro de nicho, destinado a poucos privilegiados.
João Storani, um autodidata visionário, deixou um legado que transcende o próprio automóvel. Seus quatro filhos, cada um proprietário de um exemplar do <b>Concorde</b>, e oito netos, carregam a história familiar. Dois de seus filhos, João Antônio e César, participaram ativamente do projeto, um na idealização e outro na engenharia do carro, garantindo a continuidade de um projeto que se mantém relevante para o colecionismo. O <b>Concorde</b> não é apenas um carro; é a materialização de um sonho, um símbolo da criatividade brasileira e um capítulo notável na história da indústria automotiva nacional.
Hoje, meio século após o início de sua concepção, o <b>Concorde</b> continua a fascinar, não apenas por sua beleza e sua comparação com os grandes clássicos, mas por representar um período de ousadia e inovação no design e na engenharia automotiva brasileira, reafirmando seu status como um ícone atemporal no universo dos carros antigos.
Fonte: https://g1.globo.com



