EUA enviam centenas de soldados à América Latina para combater o narcotráfico; entenda a estratégia de Trump

O avanço militar dos EUA na região reacende o debate sobre segurança, soberania e combate às drogas.

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  • Estados Unidos , Donald Trump , América Latina , Narcotráfico , Pentágono , Tropas americanas , Escudo das Américas , Soberania nacional
Dra Marcela Paiva

Pentágono prevê deslocar cerca de 600 militares para a região, com treinamentos no Panamá e exercícios conjuntos com forças de Colômbia e Honduras. Iniciativa gera preocupações sobre soberania e direitos humanos.

O governo dos Estados Unidos está ampliando sua presença militar na América Latina sob a justificativa de intensificar o combate ao tráfico de drogas. Segundo reportagem do jornal The New York Times, publicada na quarta-feira (14), o Pentágono enviará centenas de soldados à região em uma nova etapa da estratégia do presidente Donald Trump contra organizações criminosas.

De acordo com o jornal, os primeiros militares de um batalhão de aproximadamente 600 integrantes da 10ª Divisão de Montanha do Exército americano, sediada em Fort Drum, no estado de Nova York, já começaram a ser deslocados para um centro de treinamento em selva no Panamá.

Posteriormente, os soldados deverão participar de exercícios e treinamentos conjuntos com forças de segurança da Colômbia e de Honduras.

Oficialmente, a iniciativa busca fortalecer a cooperação militar entre os Estados Unidos e os países latino-americanos no enfrentamento de organizações envolvidas com o narcotráfico. Segundo autoridades ouvidas pelo jornal sob condição de anonimato, parte dos militares poderá prestar apoio às forças especiais americanas que já assessoram operações conduzidas por exércitos locais.

Drones e nova estrutura militar ampliam operação

O reforço militar faz parte de uma movimentação mais ampla dos Estados Unidos na região. Entre as medidas está a transferência de drones de vigilância MQ-9 Reaper da África para a Colômbia e o Equador.

O governo americano também está criando uma nova estrutura de comando para operações no Hemisfério Ocidental, sediada em Miami, para onde centenas de militares deverão ser transferidos.

Além disso, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, criou um escritório específico para supervisionar as atividades de combate aos cartéis.

A ampliação da estrutura militar indica uma mudança na abordagem de Washington, que pretende ir além das operações marítimas contra embarcações suspeitas de transportar drogas e ampliar a atuação para áreas terrestres.

Segundo o general Francis L. Donovan, comandante militar responsável por grande parte da América Latina, a estratégia prevê expandir as ações contra organizações criminosas que atuam na região.

Estratégia de Trump busca ampliar cooperação regional

A iniciativa integra uma política mais ampla da administração Trump para pressionar governos latino-americanos a intensificarem as operações contra organizações criminosas e ampliarem a cooperação militar com os Estados Unidos.

Nesse contexto, a Casa Branca busca consolidar uma coalizão regional contra os cartéis. Segundo o The New York Times, 19 países participam da aliança denominada Escudo das Américas.

A participação na iniciativa, porém, não significa necessariamente que todos os integrantes tenham autorizado operações militares conjuntas em seus territórios. Entre os países que aceitaram esse tipo de cooperação estão Colômbia e Honduras, conforme a reportagem.

O avanço da estratégia ocorre em meio à pressão americana para que governos da região adotem medidas mais duras contra o tráfico internacional de drogas.

Presença militar gera preocupação na América Latina

O aumento da presença militar americana desperta preocupações entre governos, especialistas e organizações de direitos humanos.

A América Latina tem um histórico de intervenções dos Estados Unidos ao longo dos séculos 20 e 21, episódios frequentemente criticados por seus impactos sobre a soberania nacional e a estabilidade política dos países envolvidos.

AgênciaModerna

Organizações de direitos humanos também alertam para o risco de vítimas civis em operações militares contra grupos criminosos.

Outra questão envolve a eficácia da estratégia. Especialistas ouvidos pelo jornal afirmam que a eliminação de integrantes de organizações criminosas pode ter efeitos limitados sobre o fluxo de drogas, uma vez que as lideranças são frequentemente substituídas e as estruturas criminosas conseguem se reorganizar.

A campanha militar americana também é alvo de questionamentos por seus resultados. Segundo o governo dos Estados Unidos, as operações iniciadas há cerca de um ano no Caribe e no Pacífico Oriental resultaram em 71 ataques contra embarcações suspeitas de tráfico e na morte de 239 pessoas que Washington afirma estarem envolvidas com o narcotráfico.

O governo americano, porém, não teria apresentado publicamente evidências que comprovem as acusações contra todas as pessoas mortas nas ações. Especialistas também questionam o impacto dessas operações sobre a disponibilidade de cocaína nos Estados Unidos.

Objetivos da operação ainda geram dúvidas

A reportagem do The New York Times aponta que integrantes do próprio governo americano demonstram preocupação com a falta de uma definição clara dos objetivos da nova etapa da operação.

Um dos temores é que eventuais ataques contra militares dos Estados Unidos provoquem uma escalada do envolvimento americano na região, ampliando o alcance das ações militares.

A preocupação ocorre em um momento em que as Forças Armadas do país já enfrentam compromissos militares no exterior, incluindo a guerra contra o Irã.

Por enquanto, o deslocamento de tropas tem caráter temporário. Autoridades americanas ouvidas pelo jornal, no entanto, admitem que as rotações de militares podem se tornar parte permanente da presença dos Estados Unidos na América Latina.

A evolução da iniciativa dependerá dos próximos passos do governo Trump e do nível de cooperação oferecido pelos países da região, além das consequências políticas, diplomáticas e humanitárias das operações.

Porta-aviões USS Gerald Ford, da Marinha dos Estados Unidos, em foto de janeiro de 2026. — Foto: Divulgação

Fonte: G1

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