A Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj) anunciou uma iniciativa pioneira ao aderir ao Programa de Museus Antirracistas do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN – Museu Memorial). Esta terça-feira, 13 de fevereiro, marca um passo significativo na gestão cultural do estado, configurando-se como um movimento inédito entre as instituições culturais fluminenses. A adesão transcende a simples inclusão, buscando incorporar de forma estruturada e abrangente a perspectiva antirracista em todas as práticas museais e institucionais. O objetivo central é promover uma transformação profunda, valorizando a equidade étnico-racial e as contribuições afro-indígenas, solidificando o papel dos museus como espaços de reflexão e responsabilidade social.
A vanguarda cultural do Rio de Janeiro
Alcance e significado da adesão Funarj
A adesão da Funarj ao Programa de Museus Antirracistas representa um marco fundamental para o setor cultural do Rio de Janeiro e, por extensão, para o Brasil. Pela primeira vez, uma rede de equipamentos culturais estaduais se compromete formalmente a desconstruir narrativas hegemônicas e a promover a inclusão de forma sistêmica. Esta iniciativa vai além da mera representatividade em exposições, visando reestruturar as políticas de gestão, a formação de equipes e todas as ações institucionais. A intenção é que os museus se tornem plataformas ativas de combate ao racismo, promovendo um diálogo contínuo sobre memória, identidade e justiça social.
Os seis museus que passam a integrar este programa são: o Museu Antonio Parreiras e o Museu do Ingá, ambos em Niterói; o Museu Carmen Miranda, localizado no Flamengo, zona sul do Rio; a Casa de Oliveira Vianna, também em Niterói; a Casa da Marquesa de Santos, em São Cristóvão, na zona norte do Rio; e a Casa de Euclides da Cunha, situada em Cantagalo, no interior do estado. Cada uma dessas instituições possui um acervo e uma história particulares que, sob a nova ótica antirracista, serão revisitados para garantir que todas as vozes e perspectivas sejam devidamente representadas e valorizadas. Por exemplo, o Museu Carmen Miranda poderá abordar a complexa relação entre a representação da mulher negra e o exotismo na cultura brasileira, enquanto a Casa da Marquesa de Santos poderá contextualizar o período imperial, incluindo as vidas e contribuições das pessoas escravizadas em seu entorno. A Casa de Euclides da Cunha, por sua vez, pode explorar as narrativas sobre o sertanejo, o indígena e a formação social brasileira sob uma ótica que desmistifique estereótipos e valorize a diversidade de experiências.
O programa de museus antirracistas do IPN
Estrutura e objetivos de uma transformação profunda
O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN – Museu Memorial) é o pilar desta rede, trazendo sua vasta experiência na preservação da memória e na luta contra o racismo. Localizado no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, o IPN surgiu a partir da descoberta de um cemitério de africanos escravizados, tornando-se um símbolo da resistência e da necessidade de reconhecer as tragédias e as riquezas da diáspora africana no Brasil. Sua expertise é crucial para guiar os museus da Funarj nessa jornada de transformação, oferecendo um embasamento teórico e prático consolidado na promoção da justiça social e da memória.
O programa do IPN é meticulosamente desenhado para ir muito além das exposições tradicionais. Ele se aprofunda na estrutura organizacional dos museus, influenciando de forma decisiva:
Políticas de Gestão: Revisão de processos de contratação, desenvolvimento de carreira e liderança para garantir a diversidade e a inclusão em todos os níveis hierárquicos. Isso inclui a criação de códigos de conduta e diretrizes internas que combatam ativamente qualquer forma de discriminação, promovendo um ambiente de trabalho equitativo e respeitoso para todos os colaboradores, independentemente de sua etnia ou origem.
Formação de Equipes: Oferecimento de treinamentos contínuos para curadores, educadores, pesquisadores, conservadores e demais funcionários. O objetivo é capacitá-los a reconhecer e desmantelar vieses raciais em suas práticas cotidianas, desde a aquisição e catalogação de acervos até a formulação de narrativas expositivas e a interação com o público. As capacitações abordarão temas como a história da escravidão, o impacto do racismo estrutural na sociedade brasileira, a valorização das culturas afro-indígenas e a implementação de metodologias pedagógicas inclusivas.
Ações Institucionais: Desenvolvimento de projetos, eventos e parcerias que promovam ativamente a equidade étnico-racial. Isso pode envolver a curadoria de exposições temáticas específicas sobre a cultura afro-brasileira e indígena, a realização de seminários abertos à comunidade, a criação de programas educativos inclusivos para escolas e famílias, e a colaboração com movimentos sociais, comunidades tradicionais e grupos minoritários para cocriar conteúdo e programações.
A integração da Funarj a esta rede significa fortalecer políticas culturais que não apenas reconheçam, mas ativamente valorizem as tradições afro-indígenas, combatendo o silenciamento histórico e promovendo uma visão mais completa e justa da cultura brasileira. Segundo Wallace Almeida, coordenador de museus da Funarj, esta participação representa um avanço significativo na gestão cultural, “um avanço institucional no fortalecimento de práticas alinhadas à equidade e à diversidade no campo museal”. Ele complementa que “trata-se de uma iniciativa que contribui para a qualificação da gestão, da formação das equipes e das ações culturais, reafirmando o papel dos museus públicos como espaços de diálogo, memória e responsabilidade social”.
Para operacionalizar esses objetivos, a Funarj implementará uma série de ações internas. Seminários regulares, oficinas práticas e ações formativas serão dedicados à reflexão crítica sobre o racismo, ao intercâmbio de experiências entre os museus e ao fortalecimento de práticas institucionais que estejam profundamente comprometidas com o enfrentamento e a superação das desigualdades raciais no setor cultural. A expectativa é criar um ecossistema de aprendizado contínuo e de inovação em práticas museológicas antirracistas.
Conclusão
A adesão da Funarj ao Programa de Museus Antirracistas do IPN representa um divisor de águas para as instituições culturais do Rio de Janeiro. É um compromisso formal e estrutural com a promoção da equidade, a valorização das heranças afro-indígenas e a construção de um ambiente museal que seja verdadeiramente inclusivo e representativo da rica diversidade brasileira. Esta iniciativa não apenas qualifica a gestão e as equipes, mas também reafirma o papel essencial dos museus como agentes de transformação social e espaços vitais de memória e diálogo para todos os cidadãos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e consciente.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que significa a adesão da Funarj ao Programa de Museus Antirracistas?
Significa que a Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro se comprometeu a integrar uma perspectiva antirracista em todas as suas práticas museais e institucionais, incluindo gestão, formação de equipes e ações culturais, com o objetivo de promover a equidade étnico-racial e combater o racismo estrutural.
Quais museus da Funarj estão envolvidos neste programa?
Seis museus foram incluídos na iniciativa: Museu Antonio Parreiras (Niterói), Museu do Ingá (Niterói), Museu Carmen Miranda (Flamengo), Casa de Oliveira Vianna (Niterói), Casa da Marquesa de Santos (São Cristóvão) e Casa de Euclides da Cunha (Cantagalo).
Como o programa do IPN difere de outras iniciativas antirracistas em museus?
O Programa de Museus Antirracistas do IPN vai além das exposições, focando na reestruturação das políticas de gestão, na formação contínua das equipes e no desenvolvimento de ações institucionais para garantir uma abordagem antirracista profunda e sistêmica, combatendo o racismo estrutural no setor cultural de maneira abrangente.
Para saber mais sobre as próximas ações e programação dos museus da Funarj, visite o site oficial da Fundação e acompanhe as redes sociais para se engajar nessa importante jornada pela equidade e diversidade cultural.



