Há um mês, em 23 de fevereiro, as vidas de milhares de moradores de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, foram drasticamente alteradas por chuvas torrenciais. O cenário de devastação, que ceifou vidas e destruiu lares, persiste para muitos que ainda buscam por soluções e respostas. Entre eles está Gilvan Leal, de 55 anos, cuja memória da noite da tragédia na comunidade Três Moinhos ainda é vívida. Por pouco, ele escapou de ser soterrado pela lama que desceu, arrebentando tudo ao seu redor, após ser segurado pela irmã no instante exato em que pensava em entrar na casa para pegar documentos.
O Cenário de Devastação e Vulnerabilidade Continua
Um mês após o pico das inundações, Juiz de Fora, a cidade mais atingida da região, ainda enfrenta uma crise humanitária de grandes proporções. Dados da prefeitura revelam que cerca de 8 mil pessoas continuam desabrigadas, e o número de mortos atingiu a marca de 65. A cidade, já classificada pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) como o quinto município do país com maior registro de desastres naturais e uma das que concentra mais população em áreas de risco, viu-se sobrecarregada por um volume de chuvas extremo, equivalente a um terço da média esperada para o mês de dezembro.
Vidas Suspensas: Histórias de Quem Perdeu Tudo
A tragédia deixou Gilvan Leal em uma situação precária, dormindo em uma garagem parcialmente descoberta, com o carro danificado e a casa inabitável, correndo risco de desabamento. Apesar de um problema cardíaco que o impede de grandes esforços, ele ainda faz bicos de pedreiro, mas sua principal demanda é a demolição segura de sua residência para que possa reconstruir. Ele expressa a urgência de uma solução prática em vez de apenas auxílios financeiros pontuais, que considera insuficientes para a magnitude do problema.
Outras famílias compartilham o mesmo desespero. Kasciany Pozzi, feirante também da comunidade Três Moinhos, perdeu um tio e teve sua casa interditada. A enchente destruiu grande parte de sua produção de cana-de-açúcar, a única fonte de renda da família, e sua Kombi, essencial para o transporte e trabalho, permanece atolada. A impossibilidade de acesso às ruas impede o escoamento e a retomada das vendas, deixando-a sem qualquer ganho. Sua fala reflete a frustração com as vias bloqueadas e a perda não só material, mas financeira.
Na comunidade Jardim Parque Burnier, Maria da Conceição Couto Almeida, 62 anos, e sua família precisaram abandonar sua casa na noite da catástrofe. Nunca antes informados sobre viverem em área de alto risco, agora enfrentam a angústia da incerteza e o temor de um desabamento em cascata, já que a casa de sua vizinha está completamente trincada. A aposentada aguarda uma nova avaliação da Defesa Civil para definir o futuro de sua moradia e de sua vida.
A Lenta Resposta e as Dúvidas dos Atingidos
Um sentimento comum entre os moradores afetados é a falta de clareza e orientação por parte das autoridades. Muitos questionam as ações da Defesa Civil e a ausência de informações concretas sobre os próximos passos e o apoio efetivo que receberão. A incerteza paira sobre a reconstrução de suas vidas e a segurança de suas casas. A onda de destruição também se estendeu a outras localidades da Zona da Mata mineira, como Matias Barbosa, que igualmente busca se reerguer.
Ações Governamentais e Desafios da Reconstrução
Em resposta à calamidade, o Governo Federal decretou estado de calamidade pública para Juiz de Fora, Matias Barbosa e Ubá, classificação que, após dez dias, foi reavaliada e rebaixada para situação de emergência, baseando-se em critérios técnicos. O Gabinete de Crise, estabelecido na Prefeitura de Juiz de Fora, tem como objetivo assegurar o acesso dos atingidos a um auxílio federal estimado em cerca de R$ 7.300. Adicionalmente, a prefeitura local está em processo de elaboração de um projeto de lei para instituir um auxílio financeiro municipal destinado a moradores e comerciantes afetados.
A Prefeitura de Matias Barbosa, por sua vez, informou que segue empenhada na captação de novos recursos e na execução de medidas para normalizar a vida no município. Visitas técnicas realizadas em colaboração com representantes do Ministério das Cidades já identificaram as intervenções cruciais para a prevenção de futuros alagamentos. No entanto, o Governo do Estado de Minas Gerais e a Prefeitura de Juiz de Fora não se manifestaram sobre o assunto até o fechamento desta reportagem, deixando em aberto questões sobre o alcance e a celeridade das ações de apoio.
O Longo Caminho da Recuperação
Para Juiz de Fora e demais municípios da Zona da Mata, o caminho da recuperação é longo e árduo. As histórias de Gilvan, Kasciany e Maria da Conceição são um reflexo da urgência em que milhares de famílias se encontram. Além da reconstrução física, é imperativo o restabelecimento da confiança e da esperança, elementos fundamentais para que essas comunidades possam, finalmente, começar a reescrever suas histórias para além da tragédia que as assolou.



