O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta segunda-feira (8) a intenção de convocar uma reunião estratégica com representantes dos Três Poderes da República e de diversos segmentos sociais. O objetivo central é promover um “mutirão educacional” em escala nacional para intensificar o combate à violência contra as mulheres, em especial o crescente número de feminicídios que alarmam o país. A iniciativa surge em um momento de profunda comoção social, marcado por manifestações populares e uma onda de crimes brutais que escancaram a urgência de ações coordenadas para garantir liberdade, respeito e segurança para todas as brasileiras. A proposta visa articular um esforço conjunto que transcenda as esferas governamentais e envolva a sociedade civil na busca por soluções duradouras.
Articulação nacional contra a violência de gênero
O apelo presidencial por engajamento coletivo
Em seu discurso durante a 14ª Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em Brasília, o presidente Lula enfatizou a necessidade de uma mobilização ampla. “É importante envolver Congresso Nacional – Senado e Câmara –, a Suprema Corte, o Superior Tribunal de Justiça, os tribunais de Justiça dos estados, os sindicalistas, os evangélicos, é preciso todo mundo para a gente fazer um mutirão educacional”, declarou o chefe de Estado. Embora não tenha especificado uma data, a intenção é que o encontro ocorra até o final deste ano. A proposta reflete a percepção de que a luta contra o feminicídio e a violência de gênero não pode ser tarefa exclusiva de um único setor, exigindo a sinergia de diferentes atores sociais e institucionais. Lula sublinhou a responsabilidade masculina na erradicação da violência, afirmando categoricamente: “Combater o feminicídio, combater a violência, é uma tarefa das mulheres? Me perdoem, meus queridos homens, é uma responsabilidade nossa. A verdade nua e crua é que a violência só tem um lado. Quem tem que mudar de comportamento não são as mulheres, são os homens”.
A urgência de um mutirão educacional
A ideia de um “mutirão educacional” proposto por Lula visa abordar a violência de gênero como um problema de raízes culturais e comportamentais. O presidente afirmou que fará do combate à violência contra a mulher sua luta política prioritária, destacando a importância da educação como ferramenta transformadora. “Aqui no Brasil nós vamos ter que criar um movimento. É um problema eminentemente educacional, vamos ter que aprender na escola, educar nossos filhos”, completou. A tese central é que a mudança de mentalidade e a desconstrução de padrões machistas devem começar desde cedo, por meio de um processo educativo contínuo e abrangente. Este enfoque busca não apenas punir os agressores, mas, sobretudo, prevenir futuros atos de violência, cultivando uma cultura de respeito e igualdade de gênero em todas as camadas da sociedade.
Dados alarmantes e o impacto social do feminicídio
A onda de protestos e casos emblemáticos
A proposta presidencial surge em um cenário de profunda indignação pública. Neste fim de semana, milhares de pessoas em diversas cidades brasileiras tomaram as ruas para denunciar a escalada da violência contra a mulher e exigir medidas efetivas dos poderes públicos. Manifestações como o “Basta ao Feminicídio”, em São Paulo, e atos de ministras exaltando a luta feminina, evidenciam a pressão social por uma resposta contundente. Durante seu discurso, o presidente Lula manifestou sua própria indignação com a violência, citando casos recentes que chocaram o país. Entre eles, o episódio em São Paulo, ocorrido em 29 de novembro, onde Douglas Alves da Silva, de 26 anos, atropelou e arrastou Tainara Souza Santos, de 31 anos, por cerca de um quilômetro, resultando na amputação das pernas da vítima, que segue internada. Outro caso mencionado foi o de um homem de 39 anos, preso em flagrante no Recife, também no final de novembro, acusado de provocar um incêndio que ceifou a vida de sua esposa grávida e dos quatro filhos do casal. Esses crimes brutais, amplamente divulgados, reforçam a percepção de uma crise de segurança para as mulheres brasileiras.
Estatísticas que exigem ação imediata
Os números da violência de gênero no Brasil são alarmantes e demonstram a urgência das medidas propostas. Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras vivenciaram um ou mais episódios de violência doméstica nos últimos 12 meses. O ano de 2024 tem sido particularmente preocupante: foram registradas 1.459 vítimas de feminicídio até o momento, o que representa uma média de aproximadamente quatro mulheres assassinadas por dia em razão do gênero. Esses crimes ocorrem em contextos de violência doméstica, familiar ou por menosprezo e discriminação relacionados à condição do sexo feminino. O Ministério das Mulheres corrobora a gravidade do cenário, indicando que o Brasil já registrou mais de 1.180 feminicídios em 2024 e quase 3 mil atendimentos diários pelo Ligue 180, o canal nacional de denúncias de violência contra a mulher. Tais estatísticas ressaltam não apenas a persistência da violência, mas também a necessidade de uma rede de apoio e proteção mais robusta e eficaz.
Fortalecimento da assistência social: um pilar no combate à violência
A PEC 383/17 e o financiamento do Suas
Além do combate direto à violência, o presidente Lula também abordou a importância do fortalecimento das políticas sociais de apoio. Durante a conferência, ele comentou a Proposta de Emenda à Constituição 383/17 (PEC 383/17), que visa estabelecer a aplicação mínima de 1% da Receita Corrente Líquida da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios no Sistema Único de Assistência Social (Suas). A PEC, já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça e por uma comissão especial, está pronta para ser votada no plenário da Câmara dos Deputados. Lula expressou que o Suas é “possivelmente uma das coisas mais importantes que a gente criou” e defendeu a necessidade de um estudo sobre a viabilidade econômica de um financiamento fixo para o sistema, eliminando a constante “briga por orçamento” anual. A garantia de recursos estáveis para o Suas é fundamental para a manutenção e expansão de serviços essenciais de proteção social, que muitas vezes são o primeiro e único refúgio para mulheres em situação de vulnerabilidade e violência.
Diálogo e deliberação para o futuro do Suas
Na mesma linha, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, defendeu um acordo federativo em torno da PEC 383/17. “A PEC 383 tem que gerar o cofinanciamento do jeito que nasceu na educação e na saúde, tripartite, município, estados e governo federal, e é isso que temos que trabalhar”, afirmou o ministro, ressaltando a importância da corresponsabilidade entre os entes federativos. Durante o evento, Dias também assinou o ato de criação da Mesa Nacional de Negociação Permanente do Suas, um fórum paritário de diálogo e deliberação que reunirá trabalhadores da assistência social. Essa iniciativa visa aprimorar as condições de trabalho e a qualidade dos serviços prestados pelo Suas, contribuindo indiretamente para a rede de apoio e acolhimento a mulheres vítimas de violência, ao garantir um sistema mais robusto e humanizado.
Conclusão
A proposta do presidente Lula de convocar uma reunião dos Poderes para tratar do feminicídio e promover um “mutirão educacional” sinaliza um reconhecimento da gravidade da violência de gênero no Brasil. A iniciativa busca uma abordagem multifacetada, envolvendo não apenas a educação para a mudança de comportamento, mas também o fortalecimento de políticas sociais essenciais, como o Suas. A mobilização de diversos setores da sociedade, juntamente com o engajamento dos Três Poderes, é vista como fundamental para enfrentar os índices alarmantes de feminicídio e garantir um futuro mais seguro e justo para as mulheres brasileiras.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é o “mutirão educacional” proposto pelo presidente Lula?
O “mutirão educacional” é uma iniciativa que visa mobilizar amplos setores da sociedade e os Três Poderes para promover a educação e a conscientização sobre a violência de gênero, buscando uma mudança cultural e comportamental para combater o feminicídio.
Quais são os principais dados que justificam a urgência do combate ao feminicídio no Brasil?
Em 2024, o Brasil registrou 1.459 vítimas de feminicídio, com uma média de quatro mulheres assassinadas por dia devido ao gênero. Além disso, cerca de 3,7 milhões de mulheres sofreram violência doméstica nos últimos 12 meses, e o Ligue 180 recebe quase 3 mil atendimentos diários.
Qual a relação entre a PEC 383/17 e o combate à violência contra a mulher?
A PEC 383/17 busca garantir financiamento estável (1% da Receita Corrente Líquida) para o Sistema Único de Assistência Social (Suas). O Suas é crucial no acolhimento e suporte a mulheres em situação de vulnerabilidade e vítimas de violência, tornando seu fortalecimento um pilar indireto, mas essencial, no combate à violência de gênero.
Quem será convocado para participar da reunião proposta por Lula?
O presidente Lula pretende convocar representantes do Congresso Nacional (Senado e Câmara), da Suprema Corte, do Superior Tribunal de Justiça, dos tribunais de Justiça dos estados, além de sindicalistas e evangélicos, com o objetivo de envolver a mais ampla gama possível de segmentos sociais e institucionais.
Para mais informações e recursos sobre o combate à violência contra a mulher, acompanhe os canais oficiais do Ministério das Mulheres.



