Patente da Semaglutida Expira no Brasil: O Que Muda no Acesso a Medicamentos para Obesidade e Diabetes

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A partir desta sexta-feira (20), o cenário farmacêutico brasileiro para medicamentos à base de semaglutida sofre uma transformação significativa. A expiração da patente desta substância, princípio ativo de agonistas do receptor GLP-1 amplamente conhecidos, como o Ozempic e o Rybelsus, abre um novo capítulo para o acesso a tratamentos voltados ao controle da diabetes tipo 2 e, em alguns casos, da obesidade.

Essa mudança legal pavimenta o caminho para a introdução de versões mais acessíveis do fármaco no mercado. Contudo, o processo regulatório para a aprovação desses novos produtos, especialmente os análogos sintéticos, apresenta desafios técnicos complexos, que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já está enfrentando.

O Cenário Pós-Patente: Expectativas e Análise da Anvisa

Com a queda da exclusividade da patente, o mercado brasileiro se prepara para receber uma nova leva de medicamentos contendo semaglutida, prometendo ampliar a concorrência e, consequentemente, reduzir os custos para os consumidores. A Anvisa já está ativamente envolvida nesse processo, com oito processos de registro de novos medicamentos com o mesmo princípio ativo sob análise.

A agência detalha que dois desses pedidos, referentes à semaglutida sintética, encontram-se atualmente em fase de exigência. Isso significa que as empresas detentoras dos pedidos precisam apresentar dados adicionais para que a análise prossiga, com prazo final para resposta estipulado para o término de junho. Paralelamente, na categoria de produtos biológicos, um produto está em análise ativa, enquanto outro aguarda o início de sua avaliação. Os demais processos em curso devem ter um parecer técnico até o final de abril, podendo resultar em aprovação, reprovação ou novas exigências.

O Desafio Técnico dos Análogos Sintéticos de Semaglutida

A avaliação dos análogos sintéticos da semaglutida é reconhecida pela Anvisa como um desafio técnico de proporções globais. Atualmente, nenhuma das principais agências reguladoras de medicamentos no mundo, incluindo as do Japão, Europa e Estados Unidos, concedeu registro a análogos sintéticos da semaglutida. Isso se deve à natureza híbrida desses produtos, que exigem uma análise que combina parâmetros típicos tanto de fármacos sintéticos quanto de biológicos.

As preocupações envolvem aspectos comuns a medicamentos sintéticos, como a presença de resíduos de solventes, catalisadores metálicos e impurezas com estruturas químicas semelhantes. Simultaneamente, devem ser consideradas questões inerentes a produtos biológicos, como o risco de imunogenicidade (a capacidade de induzir uma resposta imune indesejada) e a formação de agregados proteicos. Para medicamentos biológicos, não existe o conceito de registro como genérico; eles se enquadram como biossimilares ou, no caso da semaglutida, como análogos sintéticos de peptídeos biológicos, demandando avaliações comparativas rigorosas.

Pontos Críticos na Avaliação Técnica

Entre os aspectos mais críticos da avaliação técnica focados pela Anvisa estão os ensaios de impurezas, a formação de agregados, a garantia de esterilidade e, crucialmente, a imunogenicidade. A agência busca assegurar que os novos medicamentos não induzam reações imunes adversas, como a produção de anticorpos anti-fármaco, que poderiam não apenas comprometer a eficácia do tratamento para o paciente, mas também desencadear reações imunológicas mais graves.

Decisão Judicial Confirma o Prazo da Patente

A validade da patente da semaglutida foi reforçada por uma recente decisão judicial. Em janeiro, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido da empresa dinamarquesa Novo Nordisk, detentora das patentes de Ozempic e Rybelsus, que buscava a prorrogação do prazo de vigência desses registros. A empresa alegava mora administrativa na tramitação das patentes pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

Contudo, as instâncias ordinárias e, posteriormente, o STJ, consolidaram o entendimento de que o prazo de vigência de uma patente de invenção é de 20 anos a partir do depósito do pedido no Inpi, conforme determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 5.529. Essa decisão veda a prorrogação judicial do prazo, mesmo em caso de demora na análise administrativa, reafirmando a data de expiração da patente e selando o caminho para a entrada de novos competidores no mercado.

Perspectivas Futuras para o Acesso e a Inovação

A expiração da patente da semaglutida marca um momento decisivo para a saúde pública no Brasil, prometendo democratizar o acesso a tratamentos eficazes para condições como diabetes e obesidade, que afetam milhões de pessoas. Embora a Anvisa enfrente o desafio de avaliar novas versões do fármaco com rigor científico, garantindo sua segurança e eficácia, a expectativa é que a concorrência resulte em preços mais acessíveis e maior disponibilidade. O cenário que se desenha aponta para um futuro onde a inovação e o acesso se equilibram, beneficiando pacientes em todo o país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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