Em um feito de devoção e arte que transcende a própria narrativa bíblica, Robinson Pinheiro, um morador de 72 anos de Ibitinga, interior de São Paulo, celebra 45 anos ininterruptos interpretando Jesus Cristo na encenação da Paixão de Cristo. Assumindo o papel em 1981, Pinheiro dedicou mais de quatro décadas à representação do Filho de Deus, um período que excede a idade atribuída a Cristo, que segundo a tradição cristã, viveu até os 33 anos. Esta dedicação notável não apenas moldou a vida do ator, mas também transformou a Via Sacra de Ibitinga em um evento de profunda relevância cultural e espiritual.
Uma Jornada Inesperada: A Convocação ao Papel Principal
A trajetória de Robinson Pinheiro como Jesus Cristo teve um início surpreendente. O convite surgiu de forma inesperada em 1981, quando o Grupo de Teatro Bom Jesus, responsável pela encenação, enfrentava dificuldades para encontrar um intérprete para o papel central. Diante da apreensão de um colega, Robinson, movido por um impulso, ofereceu-se para preencher a lacuna, proferindo a frase que mudaria sua vida: “Ah, esse papel eu faço de qualquer jeito, fica tranquilo”. O que inicialmente parecia uma solução provisória rapidamente se transformou em uma paixão duradoura. Ele se envolveu profundamente com o teatro e testemunhou o crescimento exponencial do grupo ao longo dos anos, atribuindo o sucesso à graça divina.
A Profundidade da Interpretação e a Preparação Minuciosa
Fora do intenso período que antecede a Páscoa, Robinson mantém uma rotina ativa, incluindo a prática de corrida. Contudo, com a proximidade das apresentações da Via Sacra, toda a sua energia se volta para os ensaios e a preparação do personagem. Cada encenação exige cerca de quatro horas de dedicação exclusiva, que incluem meticulosa caracterização, pintura do cabelo e da barba, e ajustes cênicos. As falas são rigorosamente baseadas no texto bíblico, garantindo a autenticidade da narrativa.
Para Robinson, personificar a figura mais emblemática da história é uma 'muita responsabilidade'. Ele enfatiza que o objetivo principal do grupo vai além da mera performance teatral; é uma forma de evangelização. A busca por realismo é intrínseca à encenação: a cruz utilizada é significativamente pesada, e os açoites, embora controlados para a segurança dos atores, provocam sensações reais de dor, tudo cuidadosamente orquestrado para intensificar a emoção do público e a profundidade da mensagem espiritual. As 15 estações da Via Sacra são representadas com coreografias elaboradas e cenários de época, todas com falas ao vivo.
A Evolução da Via Sacra de Ibitinga e seu Legado Transformador
A tradição da Via Sacra do Grupo Bom Jesus em Ibitinga começou de maneira humilde, com apresentações baseadas em gestos nas ruas da cidade. Com o passar das décadas, a produção cresceu exponencialmente, incorporando falas, novos cenários e um profissionalismo que hoje atrai milhares de espectadores. Robinson recorda a apreensão inicial nas primeiras apresentações e o impacto que o espetáculo ganhou ao longo do tempo, transformando-se de um evento simples em uma grande produção de repercussão nacional.
O sucesso e a longevidade do projeto são impulsionados por um lema central do grupo: a crença de que, mesmo em meio a milhares de pessoas, se a encenação puder tocar e mudar a vida de uma única pessoa, todo o esforço e sacrifício valem a pena. Este princípio reflete o profundo compromisso do Grupo Bom Jesus e de Robinson Pinheiro com a dimensão espiritual e transformadora da arte, solidificando o evento como um marco anual de fé e cultura em Ibitinga.
A dedicação de Robinson Pinheiro não é apenas um testemunho de sua paixão pelo teatro, mas um legado de fé e persistência. Ele continua a inspirar e emocionar gerações, reafirmando o poder da arte para transmitir mensagens profundas e duradouras, fazendo de sua interpretação de Jesus Cristo uma das mais notáveis e longevas do Brasil.
Fonte: https://g1.globo.com



