A Polícia Federal (PF) aprofunda a investigação sobre o controverso furto de amostras biológicas de um laboratório de alta segurança da Unicamp, voltando seus esforços para a apuração de uma grave suspeita: a tentativa de venda dos materiais por parte da professora doutora Soledad Palameta Miller e seu marido, o veterinário e doutorando Michael Edward Miller. O casal é o principal alvo do inquérito que busca esclarecer a subtração de diversas cepas de vírus de uma unidade de biossegurança de nível 3 (NB-3), a mais rigorosa do país.
Embora a PF ainda não possua elementos concretos que comprovem a comercialização, a hipótese é cuidadosamente examinada. Este desdobramento adiciona uma camada de complexidade a um caso que já mobiliza as autoridades e a própria universidade, levantando sérias questões sobre a segurança de pesquisas sensíveis em instituições de ponta.
Detalhes da Subtração e o Escopo da Investigação Policial
O delito, notado inicialmente em 13 de fevereiro de 2026, envolveu a retirada não autorizada de pelo menos 24 cepas distintas de vírus. Entre os materiais levados do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia (IB) estavam amostras de patógenos como dengue, chikungunya, zika, herpes, Epstein-Barr, coronavírus humano e uma gama de 13 tipos de vírus animais, incluindo os causadores da gripe tipo A, H1N1 e H3N2. A Unicamp notificou a Polícia Federal em 16 de março, e o inquérito criminal foi instaurado oficialmente em 20 de março.
Todas as amostras subtraídas foram posteriormente recuperadas em diferentes prédios da Unicamp, eliminando, segundo a Polícia Federal, quaisquer indícios de contaminação externa ou ameaça de terrorismo biológico à população. Esta recuperação mitigou o risco imediato à saúde pública, mas não diminui a gravidade do incidente de biossegurança e a necessidade de apuração das responsabilidades.
O Envolvimento dos Suspeitos e as Evidências Coletadas
Soledad Palameta Miller, professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, e seu marido, Michael Edward Miller, são sócios na Agrotrix Biotech Solutions, empresa que tem como atividade principal pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências naturais. A existência desta empresa é um dos pontos que sustenta a linha investigativa da PF sobre a possível tentativa de venda das amostras biológicas.
A defesa de Soledad argumenta a inexistência de materialidade de furto, sustentando que a pesquisadora utilizava o laboratório do Instituto de Biologia por não dispor de estrutura própria para suas pesquisas. Contudo, registros de câmeras de segurança mostraram Michael Miller saindo do laboratório NB-3 com caixas em horários incomuns, o que reforça a linha de investigação sobre a autoria da subtração. Atualmente, a pesquisadora responde ao processo em liberdade, enquanto a Unicamp conduz uma sindicância interna para apurar as responsabilidades administrativas dentro da instituição.
Ministério Público Federal: Foco nas Falhas Institucionais da Unicamp
Paralelamente à investigação criminal, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento para apurar se a Unicamp falhou no controle e na fiscalização de material biológico sensível. O órgão busca determinar a regularidade do acondicionamento, controle e fiscalização desses materiais na instituição, bem como a eventual existência de falhas estruturais ou procedimentais que possam ter contribuído para o desaparecimento das amostras e, por consequência, tido potencial repercussão sobre a saúde pública.
O MPF expediu ofício à Unicamp com o objetivo de coletar informações e verificar a existência de elementos que justifiquem a abertura de um Inquérito Civil. A universidade, que até o momento não havia sido notificada formalmente, informou que responderá assim que receber o comunicado, reforçando seu compromisso em colaborar com as averiguações dos protocolos de segurança em seus laboratórios.
A gravidade do incidente, ocorrido em um laboratório de nível NB-3 – o mais alto patamar de contenção laboratorial para agentes infecciosos no Brasil – ressalta a importância de controles rigorosos. O caso não só aponta para a necessidade de esclarecer a conduta individual dos envolvidos, mas também exige uma profunda reflexão sobre a adequação dos protocolos de biossegurança e a fiscalização institucional em centros de pesquisa de excelência. Os desdobramentos dessas múltiplas investigações serão cruciais para aprimorar a segurança e a integridade da pesquisa científica no país.
Fonte: https://g1.globo.com



