Apesar de avanços significativos registrados no último ano, um novo relatório do Censo Escolar, divulgado em fevereiro, revela que a ausência de acesso à água potável ainda é uma realidade alarmante em 1.203 escolas públicas brasileiras, impactando diretamente a vida e o aprendizado de aproximadamente 75 mil estudantes. Às vésperas do Dia Mundial da Água, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lança um alerta contundente sobre as graves consequências dessa deficiência, que vão muito além da sede, afetando a saúde, a dignidade e o bem-estar de crianças e adolescentes.
Redução Pela Metade, Mas Desafio Persistente
Os dados mais recentes indicam que o número de escolas públicas sem fornecimento de água foi reduzido pela metade entre 2024 e 2025. No ano anterior, cerca de 2.512 instituições não possuíam acesso a esse recurso vital, deixando 179 mil alunos em situação de vulnerabilidade. O progresso é notável, com mais de 100 mil estudantes ganhando acesso à água durante o período. Contudo, a persistência de 1.203 escolas desabastecidas representa um obstáculo significativo para a garantia de um direito fundamental e para a criação de um ambiente educacional digno e saudável para todos.
Desigualdades Sociais e Geográficas na Carência Hídrica
A análise do perfil das escolas e estudantes ainda afetados pela falta de água expõe profundas disparidades regionais, sociais e raciais. A esmagadora maioria das instituições sem acesso à água, precisamente 96%, está localizada em zonas rurais, refletindo um déficit histórico na implementação de políticas públicas, especialmente nas regiões da Amazônia e do Semiárido. Além disso, os dados revelam que alunos negros são desproporcionalmente impactados, constituindo a maioria nessas escolas. Há também uma proporção relevante de crianças e adolescentes indígenas entre os que sofrem com essa carência, evidenciando como a questão hídrica se entrelaça com questões de equidade e justiça social.
Impactos Abrangentes: Saúde, Dignidade e Aprendizado Comprometidos
A falta de água nas escolas transcende a simples privação de hidratação. O Unicef sublinha que essa carência afeta diretamente a higiene pessoal dos estudantes, a qualidade da merenda escolar e, de forma crucial, a dignidade menstrual de meninas e mulheres. Rodrigo Resende, oficial de Água, Saneamento e Higiene do Unicef no Brasil, destaca que a ausência de instalações sanitárias adequadas e de água corrente pode levar à evasão escolar feminina durante o período menstrual, expondo as alunas a maiores riscos de violência e prejudicando seu desempenho acadêmico. Consumo de água seguro, saneamento e higiene são pilares essenciais para promover a saúde e o bem-estar no ambiente escolar, sendo todos severamente comprometidos pela falta desse recurso básico.
Caminhos para a Solução: Esforços Colaborativos e Sustentabilidade
Para superar esse desafio multifacetado, o Unicef defende uma abordagem integrada que envolva entes federativos, instituições e as próprias comunidades. A proposta inclui a ampliação de investimentos, o fortalecimento da capacitação de técnicos e lideranças locais, e a implementação de soluções que respeitem as especificidades de cada território. O engajamento ativo das comunidades é considerado vital, assim como a priorização de fontes renováveis de energia para sistemas de abastecimento. A organização já demonstrou a viabilidade dessas ações através da instalação de sistemas movidos a energia solar no Amazonas e da expansão da infraestrutura hídrica no território Yanomami, em Roraima, reforçando seu papel de apoio a gestores na construção de políticas públicas robustas e duradouras.
Conclusão: Um Chamado Urgente à Ação
A garantia de acesso à água potável em todas as escolas públicas do Brasil é mais do que uma meta; é um imperativo de direitos humanos e um pilar para o desenvolvimento educacional e social do país. Apesar dos avanços, os números ainda alarmantes exigem um compromisso renovado e esforços coordenados de todos os setores da sociedade. Investir em infraestrutura hídrica nas escolas, especialmente nas áreas mais vulneráveis, é investir no futuro de 75 mil crianças e adolescentes, assegurando-lhes um ambiente propício ao aprendizado, à saúde e à plena realização de seus potenciais.



