Uma ventania histórica sem precedentes transformou São Paulo em um cenário de caos generalizado, impactando milhões de moradores e gerando prejuízos bilionários. Rajadas de vento que atingiram quase 100 km/h deixaram mais de 2 milhões de imóveis sem energia elétrica, paralisaram aeroportos com centenas de voos cancelados e causaram uma perda de aproximadamente R$ 1,54 bilhão ao varejo e setor de serviços. A capital paulista, que já havia enfrentado transtornos na mobilidade, viu-se mergulhada em uma crise de infraestrutura e abastecimento, desencadeando uma série de debates sobre a capacidade de resposta das concessionárias e a resiliência urbana. A semana foi marcada por falhas sistêmicas e um clamor crescente por soluções urgentes e efetivas.
O caos da ventania: destruição e paralisação na capital paulista
Rajadas recordes e cenário de devastação
A capital paulista foi surpreendida por um vendaval de intensidade inédita que começou na manhã de quarta-feira, 10 de dezembro de 2025, e persistiu com força até a noite. Desde as 9h, diversas regiões registraram rajadas superiores a 75 km/h, culminando em uma marca impressionante de 98,1 km/h na Lapa, Zona Oeste, conforme registros do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE). No Mirante de Santana, o Inmet apontou ventos de 80 km/h. Meteorologistas confirmaram que o fenômeno era um desdobramento de um ciclone extratropical que se formou no Sul do Brasil, afetando tanto a capital quanto a região metropolitana. O que mais chamou a atenção dos especialistas foi a longa duração do evento e a ausência de chuva, tornando-o o mais forte sem precipitação desde 1963, quando o Inmet iniciou as medições.
O rastro de destruição foi vasto: mais de 2 milhões de imóveis ficaram sem luz no pico do vendaval, e a cidade registrou a queda de 151 árvores. Os estragos foram observados em todas as regiões, incluindo a Grande São Paulo. Na Marginal Pinheiros, uma placa de sinalização ameaçou desabar, exigindo a interdição de quatro faixas para reparo. Em Guarulhos, na Vila Galvão, uma marquise despencou sobre veículos estacionados, felizmente sem feridos. Fachadas de edifícios foram danificadas, telhas voaram e até a decoração natalina foi afetada, como o Papai Noel que tombou na Avenida Paulista e a ornamentação em Santana de Parnaíba. Em São Bernardo do Campo, a cobertura de um posto de gasolina cedeu.
O transporte público também sofreu as consequências. A Linha 10–Turquesa da CPTM operou com intervalos maiores devido a uma avaria na rede aérea causada pela queda de um cabo. A falha impediu que os trens para Rio Grande da Serra parassem na Estação Capuava, exigindo que passageiros fizessem trajetos inversos e demorados. Além disso, parques como Ibirapuera, Eucaliptos e Jardim Felicidade foram temporariamente fechados para garantir a segurança da população. Tragicamente, o evento ceifou uma vida: Claudineia Perri Castiglioni, de 54 anos, faleceu em Sapopemba, Zona Leste, após ser atingida pelo desabamento de um muro. Diante da magnitude dos problemas, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prontamente enviou um ofício à Enel solicitando explicações sobre o desempenho da concessionária na recomposição do serviço.
Consequências ampliadas: apagão prolongado e impacto socioeconômico
Falta de luz, água e transtornos aéreos
A persistência do apagão tornou-se uma das maiores preocupações. Mais de 24 horas após o início da ventania, quase 1,4 milhão de imóveis na região metropolitana seguiam sem energia elétrica na quinta-feira, 11 de dezembro, sendo quase 1 milhão apenas na capital. A falta de luz causou um efeito cascata, afetando também o abastecimento de água em diversas regiões, pois as bombas de distribuição dependem da eletricidade para funcionar. A Sabesp informou que áreas como Americanópolis, Parelheiros, Sacomã e Vila Formosa, na capital, e cidades como Itapecerica da Serra e Guarulhos, na Grande São Paulo, estavam com o serviço comprometido.
A mobilidade urbana continuou em xeque, com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrando quase 300 semáforos apagados na quinta-feira, a maioria no Centro. A remoção de árvores caídas progrediu lentamente; até a noite de quarta, 182 dos 231 registros de quedas haviam sido atendidos. Infelizmente, mais uma fatalidade foi registrada: um homem de 52 anos morreu na Rua Piauí, região central, após sofrer uma queda enquanto tentava remover um galho de árvore que bloqueava a calçada.
Os aeroportos internacionais de São Paulo, em Guarulhos, e de Congonhas, na capital, viveram momentos de caos. Entre quarta e quinta-feira, 417 voos foram cancelados, com mais de 100 apenas na quinta-feira. Em Guarulhos, pelo menos 15 partidas e 39 chegadas foram suspensas, enquanto Congonhas contabilizou 67 chegadas e 52 partidas canceladas até a noite. Passageiros enfrentaram filas intermináveis, dormiram nos terminais e a companhia aérea Gol chegou a suspender temporariamente a venda de passagens. Os reflexos foram sentidos até mesmo em aeroportos do Rio de Janeiro e Brasília.
Perdas financeiras e a pressão sobre a Enel
O impacto econômico foi devastador. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) estimou um prejuízo de R$ 1,54 bilhão em faturamento para o comércio e serviços da capital entre quarta e quinta-feira. O setor de serviços foi o mais atingido, perdendo pouco mais de R$ 1 bilhão, enquanto o comércio registrou perdas de R$ 511 milhões.
A lentidão da Enel no restabelecimento da energia gerou forte criticismo por parte das autoridades. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, classificou a situação como preocupante e questionou a eficácia do plano de contingência da concessionária, sugerindo que a velocidade de restabelecimento está diretamente ligada à automação e investimento. Em um episódio que aumentou a indignação pública, um funcionário de uma empresa parceira da Enel foi detido após admitir ter cobrado até R$ 2,5 mil para religar a energia de um endereço, sendo preso em flagrante por corrupção passiva.
As histórias de moradores sem energia por dias a fio acumularam-se. Renato Rino, comerciante da Vila Invernada, Zona Leste, relatou que sua casa, onde moram seus pais idosos, ficou sem luz por mais de 48 horas, sem perspectiva de retorno, enquanto parte do bairro já havia sido atendida. Na Zona Sul, Laila Santos, sócia do restaurante Manden Baobá, fez um apelo emocionada nas redes sociais após perder mercadorias e clientes devido à falta de energia. Ela contabilizou oito chamados à Enel sem qualquer resposta ou envio de equipes. Camila Guimarães, do Jardim Elisa Maria, Zona Norte, enviou um vídeo mostrando sua rua escura e alimentos estragando na geladeira. Ela relatou que sua avó idosa, em recuperação de um AVC, caiu no escuro e feriu a mão, e que a Enel não fornecia atendimento adequado, apenas protocolos.
O clamor por soluções e o futuro da concessão
Desafios e apelos à intervenção federal
Passadas quase 50 horas da ventania, na manhã de sexta-feira, 12 de dezembro, mais de 700 mil pessoas ainda permaneciam sem energia na região metropolitana, evidenciando a incapacidade de resposta rápida da concessionária. A exaustão e a revolta dos cidadãos e das autoridades atingiram um ponto crítico. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, concedeu entrevista à rádio CBN e, posteriormente, a uma coletiva de imprensa, onde defendeu veementemente a intervenção federal na Enel. Ele acusou a empresa de mentir sobre o número de equipes em campo, afirmando que a capital tinha apenas 48 árvores aguardando desligamento de energia para serem removidas, sem a presença da concessionária.
Nunes expressou total insatisfação com os serviços prestados pela Enel, lembrando que problemas semelhantes ocorreram em anos anteriores e prevendo que continuarão caso a empresa mantenha a concessão. Ele apelou ao governo federal para que inicie um processo de caducidade do contrato e busque uma empresa com capacidade de atender as demandas de São Paulo. A situação se tornou insustentável para milhares de famílias e negócios, que enfrentaram perdas materiais e emocionais significativas, com idosos e pessoas acamadas sofrendo as maiores consequências da falta de luz. A comunidade e o poder público clamam por medidas drásticas que garantam a segurança e a qualidade do serviço essencial de energia elétrica na maior cidade do país.
FAQ
Qual foi a principal causa da ventania histórica em São Paulo?
A ventania foi um efeito do ciclone extratropical que se formou no Sul do Brasil, cujas rajadas de vento se estenderam até a capital paulista e região metropolitana.
Quantas pessoas ficaram sem energia elétrica no pico do evento?
No pico do vendaval, mais de 2 milhões de imóveis na capital e região metropolitana de São Paulo ficaram sem energia elétrica. Mesmo após dias, centenas de milhares ainda permaneciam sem luz.
Qual foi o impacto financeiro da ventania para o comércio e serviços?
O comércio e o setor de serviços na capital paulista registraram uma perda de faturamento de aproximadamente R$ 1,54 bilhão entre a quarta e a quinta-feira daquela semana, segundo levantamento da FecomercioSP.
Por que a situação da Enel gerou tanta controvérsia?
A Enel foi alvo de críticas severas por parte de autoridades e moradores devido à lentidão no restabelecimento da energia, à alegada falta de equipes em campo e ao impacto prolongado dos apagões, o que levou até mesmo a pedidos de intervenção federal na concessão.
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