O mapa geográfico da Ilha do Cardoso, localizada em Cananéia, no litoral sul de São Paulo, pode sofrer uma alteração significativa e irreversível nos próximos anos. Um parecer técnico do Ministério Público (MP-SP) alertou para o risco iminente de rompimento de um esporão arenoso, fenômeno que pode resultar na formação de uma nova ilha e no isolamento de comunidades caiçaras tradicionais. A projeção aponta para a possibilidade de ruptura já este ano, com as mudanças na configuração da área se consolidando até 2026, caso as condições atuais persistam.
Essa transformação paisagística, impulsionada pelo agravamento do processo erosivo, levanta sérias preocupações ambientais e sociais, colocando em xeque a segurança e a integridade de centenas de moradores que dependem da dinâmica natural do ecossistema costeiro.
A Ameaça da Erosão e Suas Causas
O processo erosivo, desencadeado por agentes naturais como a água e o vento, tem se intensificado drasticamente na Ilha do Cardoso. Segundo o promotor Paulo Campos dos Santos, a dinâmica natural foi severamente agravada pela elevação do nível do mar e pela crescente ocorrência de eventos climáticos extremos, diretamente associados às mudanças climáticas globais. Essas forças combinadas estão remodelando a costa de forma acelerada.
Um estudo detalhado do Centro de Apoio à Execução (CAEx) do Ministério Público, apresentado à Justiça de Cananéia, revelou a crítica situação do Estreito do Melão. Neste trecho, a faixa de terra que conecta as porções da ilha estreitou-se para alarmantes 48 a 50 metros, um indicativo claro do risco iminente de colapso estrutural do esporão arenoso e subsequente separação da área, criando um novo corpo insular.
Determinações Judiciais e Respostas Governamentais
Diante da gravidade dos dados apresentados, o juiz Lucas Semaan Campos Ezequiel acolheu o parecer do Ministério Público, emitindo determinações urgentes na última segunda-feira. A Fundação Florestal e o Estado de São Paulo foram encarregados de elaborar, em apenas dez dias, um plano emergencial. Este plano deve focar na proteção das comunidades potencialmente afetadas, incluindo rotas de evacuação, sistemas de alerta, abrigos e logística para garantir a segurança dos moradores.
A decisão judicial também proíbe novas intervenções de engenharia que sejam incompatíveis com a dinâmica natural do ambiente costeiro. Além disso, exige a avaliação das estruturas de contenção já existentes, como mourões, galharia e pneus, com a possibilidade de sua eventual retirada ou não reposição e ampliação, caso não sejam recomendadas por especialistas. É importante ressaltar que uma determinação anterior, de 2 de fevereiro, que dava 45 dias para o Governo do Estado realizar estudos para conter a erosão na Ilha do Cardoso, continua plenamente válida.
Impactos nas Comunidades e Ações de Adaptação
A ameaça de rompimento não é um fenômeno inédito na Ilha do Cardoso. Em 2018, um esporão arenoso similar já se rompeu, dividindo parte da ilha e forçando a realocação das comunidades de Vila Rápida e Enseada da Baleia. Atualmente, cerca de 400 moradores, entre comunidades caiçaras e aldeias indígenas, são diretamente afetados pelo processo erosivo contínuo, vivenciando os impactos em suas vidas diárias e meios de subsistência.
A Fundação Florestal tem acompanhado de perto a situação, utilizando sensoriamento remoto, drones e vistorias técnicas periódicas, especialmente no sensível trecho do Estreito do Melão. Especialistas estaduais em hidrodinâmica, em conjunto com a comunidade e o MP, desenvolveram um projeto técnico preliminar, que se encontra em fase final de análise para contratação.
Entre as comunidades, a Vila Mendonça, com quatro famílias e sete pessoas, é a mais próxima do Estreito do Melão, localizada a aproximadamente um quilômetro da área mais vulnerável. Já na comunidade do Pereirinha, considerada menos crítica, as edificações mais expostas, como comércios à beira-mar, já receberam autorização para realocação, com apoio da Fundação Florestal na doação e transporte de materiais para a implementação de eco-barreiras. A Fundação também colabora com a comunidade na elaboração de um plano de adaptação e resiliência climática, visando identificar novas áreas para ocupação e garantir condições de vida adequadas para os próximos 50 a 100 anos.
Perspectivas Futuras e o Desafio da Resiliência
A situação na Ilha do Cardoso representa um complexo desafio que demanda uma abordagem integrada entre as esferas governamentais, científicas e as comunidades locais. A iminência de uma alteração geográfica tão profunda sublinha a urgência de medidas eficazes e sustentáveis.
A colaboração contínua entre o Ministério Público, a Justiça, a Fundação Florestal e o Governo do Estado, aliada à participação ativa dos moradores, será crucial para mitigar os impactos, garantir a segurança das populações afetadas e buscar soluções de longo prazo que respeitem a dinâmica natural do ambiente e a cultura das comunidades tradicionais. O futuro da Ilha do Cardoso e de seus habitantes pende da efetividade dessas ações e da capacidade de adaptação frente às implacáveis forças da natureza e às mudanças climáticas.
Fonte: https://g1.globo.com



