Uma grave ocorrência em Santos, litoral de São Paulo, no final de dezembro, chamou a atenção para o perigo constante representado pela linha com cerol. Alessandra Campos, uma motociclista de 51 anos, teve que tomar uma decisão drástica para salvar sua vida: ela se jogou do veículo após ser atingida por uma linha com cerol esticada sobre a via pública. O incidente, que resultou em ferimentos no pescoço e duas costelas fraturadas, sublinha a letalidade dessa prática proibida e os riscos iminentes a que motociclistas e ciclistas estão expostos. A ação rápida de Alessandra evitou um desfecho fatal, mas a deixou com sérias lesões e um longo período de recuperação. O caso reacende o debate sobre a fiscalização e a conscientização sobre os perigos do cerol, uma ameaça silenciosa nas ruas.
O acidente e os ferimentos
O incidente ocorreu em 28 de dezembro, quando Alessandra Campos trafegava pela orla de Santos. Enquanto conduzia sua motocicleta a aproximadamente 30 km/h, a motociclista foi surpreendida por uma linha de cerol, que estava perigosamente estendida entre uma árvore e um poste na via. A linha atingiu seu pescoço, e a reação instintiva e rápida de Alessandra foi crucial para evitar uma tragédia ainda maior.
A decisão crítica e as consequências imediatas
No momento em que sentiu o impacto da linha no pescoço, Alessandra Campos percebeu o perigo iminente. Para evitar um corte mais profundo e potencialmente fatal, ela agiu por instinto e se jogou da motocicleta, caindo violentamente na via. “Se eu não tivesse feito isso, teria morrido”, afirmou a motociclista, ressaltando a gravidade da situação e a certeza de que sua decisão salvou sua vida. Além do impacto da linha, a queda provocou queimaduras devido ao atrito com a temperatura elevada do asfalto. Equipes da Polícia Militar (PM) e da Guarda Civil Municipal (GCM) foram acionadas e prestaram os primeiros socorros no local. Após o atendimento inicial, Alessandra foi encaminhada a um pronto-socorro para receber medicação e avaliações preliminares dos ferimentos.
Recuperação e desafios da vítima
Mesmo após a medicação inicial, Alessandra Campos continuou a sentir fortes dores na região do tórax. Diante da persistência do desconforto, ela buscou atendimento na Santa Casa de Santos no fim de semana seguinte ao acidente. Foi nessa unidade de saúde que os exames revelaram a extensão dos ferimentos internos: duas costelas fraturadas. A recuperação de fraturas nas costelas é um processo delicado e doloroso, que não permite imobilização por gesso, exigindo repouso e cuidados específicos. “Estou trabalhando devagarzinho porque não tenho o que fazer. A costela não engessa nem nada. E agora tem que esperar sarar”, relatou Alessandra, evidenciando as dificuldades e o impacto em suas atividades diárias e profissionais. A motociclista enfrenta um longo período de convalescença, com limitações impostas pelas lesões e a necessidade de aguardar a cicatrização natural dos ossos.
Ações de fiscalização e conscientização
A ocorrência com Alessandra Campos em Santos reforça a urgência de medidas rigorosas contra o uso de cerol e linhas cortantes, bem como a necessidade de campanhas contínuas de conscientização. As autoridades e a sociedade civil atuam em diversas frentes para combater essa prática perigosa que anualmente causa acidentes graves e, muitas vezes, fatais em todo o país.
Legislação e perigos do cerol
No estado de São Paulo, a Lei Estadual 17.201/2019 proíbe expressamente o uso, a posse, a fabricação e a comercialização de linhas com cerol, bem como a importação da chamada “linha chilena” ou indonésia. O cerol é uma mistura caseira de cola e vidro moído aplicada nas linhas de pipas, tornando-as extremamente cortantes. A linha chilena, por sua vez, é um produto industrializado que contém pó de metal ou quartzo, sendo ainda mais resistente e perigosa. Ambos os materiais são desenvolvidos para cortar a linha de outras pipas em “batalhas” aéreas, mas representam uma ameaça gravíssima a quem transita por vias públicas. O contato de uma linha com cerol ou linha chilena com o corpo de um motociclista, ciclista ou pedestre pode causar cortes profundos, mutilações e, em muitos casos, levar à morte, especialmente se atingir a região do pescoço, onde se localizam artérias e veias vitais. A proibição visa coibir a circulação desses materiais e proteger a vida dos cidadãos.
Esforços da prefeitura de Santos contra o uso irregular
A Prefeitura de Santos, por meio da Guarda Civil Municipal (GCM), mantém um trabalho ativo de fiscalização e combate ao uso e comércio irregular de cerol em toda a cidade. Em resposta ao acidente, a administração municipal informou que a GCM esteve no local para prestar apoio à vítima e que suas equipes atuam diariamente para coibir a prática. Na orla, por exemplo, a GCM utiliza quadriciclos para realizar patrulhamento em toda a extensão da areia, além de monitorar bairros e outras regiões da cidade. Quando um indivíduo é avistado empinando pipa, uma vistoria imediata é realizada para verificar a presença de linha com cerol. Caso confirmada a irregularidade, o material é apreendido e o responsável está sujeito a uma multa de R$ 1.630,00. Em 2025 (provavelmente referindo-se aos dados consolidados do ano anterior, 2024, ou a uma projeção para o início de 2025), a prefeitura registrou 31 chamados para averiguação de pipas com cerol, resultando na apreensão de 330 carretéis com cerol e 340 pipas.
Além da fiscalização, a Secretaria Municipal de Educação (Seduc) de Santos, em parceria com diversas instituições como CPFL Energia, Polícia Militar, GCM, Corpo de Bombeiros, Samu e Ecofábrica, realiza um projeto educativo de longa data sobre o uso consciente de pipas. Essa iniciativa, que já dura mais de 10 anos, promove ações de conscientização com os alunos da rede municipal, que se tornam multiplicadores das informações sobre os perigos do cerol e a importância da segurança. A edição mais recente do projeto beneficiou mais de 7 mil alunos, com palestras educativas e simulações práticas que ilustram os riscos e as consequências do uso irresponsável das linhas.
Um alerta contínuo e a responsabilidade coletiva
O grave acidente envolvendo a motociclista Alessandra Campos serve como um alerta contundente para os riscos que a linha com cerol representa. Sua história, de uma decisão de fração de segundo para evitar a morte e o posterior período de recuperação por fraturas, ilustra a seriedade do problema. Embora as autoridades em Santos demonstrem esforços contínuos na fiscalização e na conscientização, a persistência de incidentes como este evidencia que a batalha contra o uso irregular desses materiais cortantes está longe de terminar. A efetividade da legislação e das campanhas educativas depende fundamentalmente da colaboração de toda a sociedade, desde os pais que orientam seus filhos até os cidadãos que denunciam práticas ilegais, garantindo que as ruas sejam seguras para todos.
Perguntas frequentes
O que é cerol e por que é perigoso?
Cerol é uma mistura de cola e vidro moído aplicada em linhas de pipa para torná-las cortantes. É extremamente perigoso porque pode causar cortes profundos, mutilações e até mesmo a morte em pessoas, especialmente motociclistas e ciclistas, ao atingir regiões sensíveis como o pescoço. Existem também linhas industrializadas, como a “linha chilena”, que contêm pó de metal e são igualmente ou mais letais.
Qual a legislação sobre o cerol no estado de São Paulo?
No estado de São Paulo, a Lei Estadual 17.201/2019 proíbe o uso, a posse, a fabricação e a comercialização de linhas com cerol, bem como a importação de linhas cortantes como a linha chilena. O descumprimento dessa lei pode acarretar em multas e outras sanções legais para os infratores.
Quais são as ações da prefeitura de Santos para combater o uso de cerol?
A Prefeitura de Santos atua em duas frentes principais: fiscalização e educação. A Guarda Civil Municipal (GCM) realiza patrulhamento constante, inclusive com quadriciclos na orla, para identificar e apreender pipas e carretéis com cerol. Além disso, a Secretaria Municipal de Educação (Seduc) promove um projeto educativo em parceria com diversas instituições, conscientizando crianças e jovens sobre os perigos do cerol e o uso seguro das pipas, transformando-os em multiplicadores dessa mensagem.
Denuncie o uso irregular de cerol e ajude a proteger vidas. Sua colaboração é essencial para a segurança de todos.
Fonte: https://g1.globo.com



