MPF e defensorias exigem medidas urgentes contra o calor extremo no Rio

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© Fernando Frazão/Agência Brasil
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As recentes e persistentes ondas de calor que assolaram o Rio de Janeiro levaram o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ) a tomarem uma medida contundente. Os órgãos encaminharam um ofício conjunto ao governo estadual e à prefeitura da capital fluminense, solicitando a implementação de recomendações urgentes e coordenadas para mitigar os efeitos adversos do calor extremo no Rio. O documento, assinado na noite de 26 de janeiro, enfatiza a necessidade de ações intersetoriais de proteção aos grupos mais vulneráveis diante desse cenário climático desafiador, que tem gerado preocupação e sobrecarregado os serviços de saúde na região.

Ação conjunta por medidas emergenciais

A iniciativa do MPF e das Defensorias Públicas visa garantir uma resposta eficaz e protetiva por parte das autoridades governamentais frente a um fenômeno climático que impacta diretamente a saúde pública e a qualidade de vida, especialmente das parcelas mais fragilizadas da sociedade. A gravidade da situação climática exige um posicionamento proativo e estratégias bem definidas para salvaguardar a população.

O pedido formal e seus destinatários

O ofício, formalmente encaminhado, é um chamado à ação imediata e coordenada. Ele foi endereçado diretamente ao governador Cláudio Castro, ao prefeito Eduardo Paes, e aos secretários de saúde de ambas as esferas – municipal e estadual. A escolha desses destinatários ressalta a importância de uma abordagem integrada, que envolva desde a alta cúpula dos governos até os responsáveis pela gestão da saúde pública. O documento não apenas pede, mas exige a adoção de “providências urgentes, coordenadas e intersetoriais de proteção dos grupos vulnerabilizados diante de cenários de calor extremo”. Esta linguagem denota a seriedade e a iminência do problema, que não pode ser tratado como um evento isolado, mas como uma crise de saúde pública que demanda uma resposta abrangente e contínua, dadas as projeções climáticas para o futuro.

Os riscos à saúde e à população vulnerável

O cerne da preocupação expressa no ofício reside nos impactos diretos e severos do calor extremo na saúde e na integridade física dos cidadãos. As elevadas temperaturas criam um ambiente propício para uma série de complicações médicas. Entre os impactos mais citados, os órgãos alertam para a desidratação, que pode agravar rapidamente condições preexistentes; a exacerbação de doenças crônicas, como problemas cardiovasculares e respiratórios, que se tornam mais difíceis de controlar sob estresse térmico; insolação, uma condição grave causada pela exposição excessiva ao sol; exaustão térmica, um estágio anterior e menos grave que a insolação, mas que já indica falha do corpo em regular a temperatura. Em casos mais extremos e preocupantes, menciona-se o golpe de calor (heatstroke), uma emergência médica que se caracteriza pela elevação descontrolada da temperatura corporal, confusão mental, convulsões e que apresenta uma elevada taxa de mortalidade se não for tratado com urgência. MPF e as Defensorias reforçam que os efeitos do calor extremo são sentidos de forma desigual, “afetando desproporcionalmente populações historicamente marginalizadas e em situação de vulnerabilidade social”, o que acentua a necessidade de medidas focadas e equitativas.

O cenário de calor recorde no Rio de Janeiro

A situação de calor na capital fluminense atingiu níveis alarmantes, mobilizando alertas e preocupações das autoridades meteorológicas e de saúde. Compreender a escala desse fenômeno é crucial para dimensionar a urgência das ações pleiteadas.

Temperaturas elevadas e alertas

Desde a tarde da véspera de Natal, em 24 de dezembro, a cidade do Rio de Janeiro entrou no estágio 3 de calor, uma classificação em uma escala que vai até 5, indicando uma situação de alerta. Nesse nível, são registrados índices de calor alto, variando entre 36°C e 40°C, com previsão de que essas condições se mantenham ou se intensifiquem por, ao menos, três dias consecutivos. Em 25 de dezembro, os termômetros atingiram a marca de 40,1°C, estabelecendo um novo recorde para o mês e evidenciando a intensidade atípica do fenômeno. As previsões do Alerta Rio, o sistema de meteorologia da prefeitura carioca, para os dias seguintes não eram animadoras, indicando 38°C para o dia 27 e projetando 40°C para o dia 28. O alívio, com a chegada de chuvas, era esperado somente a partir de 29 de dezembro, mas mesmo assim, as temperaturas ainda se manteriam próximas dos 40°C, demonstrando a persistência do calor intenso. Este cenário não é exclusivo do Rio. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um alerta vermelho, o nível mais alto, para a onda de calor que se estende por vastas áreas das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil. A explicação para essa abrangência está em um bloqueio atmosférico, um fenômeno meteorológico que impede a movimentação de frentes frias e massas de ar, retendo o ar quente sobre essas regiões.

Impacto nos serviços de saúde

O calor excessivo não se manifesta apenas nos termômetros, mas tem tido um impacto direto e significativo nos serviços de saúde da cidade. A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro divulgou dados que revelam um aumento substancial na demanda por atendimento de urgência. A rede de saúde registrou uma média de 450 atendimentos diários, um número que reflete a pressão sobre o sistema e a vulnerabilidade da população às altas temperaturas. Os casos mais comuns atendidos, e que são possivelmente relacionados ao calor, incluem tontura, fraqueza e desmaios, além de queimaduras solares, que podem ser graves e exigir tratamento médico. No âmbito estadual, o governo não ficou alheio à situação e emitiu alertas a todos os 92 municípios do Rio de Janeiro, orientando sobre os perigos do calor excessivo e a necessidade de medidas preventivas e de assistência. Essa ação coordenada em nível estadual demonstra a amplitude do problema e a preocupação das autoridades em proteger a saúde de todos os fluminenses.

Grupos de risco e protocolos de proteção

A preocupação com o calor extremo é transversal, mas os órgãos de defesa da cidadania destacam que seus efeitos não são democráticos. O ofício detalha os segmentos da população que são desproporcionalmente afetados e, portanto, demandam atenção e proteção especiais.

Detalhamento dos grupos mais afetados

O documento enviado ao governo estadual e à prefeitura do Rio pelo MPF e Defensoria Pública identifica com precisão os grupos de risco que necessitam de atenção prioritária. Entre eles estão: crianças, com um foco particular em lactentes, recém-nascidos e prematuros, cuja termorregulação ainda não é plenamente desenvolvida; idosos acima de 65 anos, que frequentemente possuem condições de saúde pré-existentes e menor capacidade de adaptação às mudanças de temperatura; gestantes e lactantes, que possuem demandas fisiológicas aumentadas; pessoas com doenças crônicas e com deficiência, cuja saúde já é mais frágil e pode ser seriamente comprometida pelo calor; trabalhadores ao ar livre e desportistas, que estão diretamente expostos ao sol e ao esforço físico em altas temperaturas; indivíduos com restrição de mobilidade e acamados, que podem ter dificuldade em buscar ambientes mais frescos ou se hidratar; e, finalmente, a população em situação de rua, que enfrenta uma série de vulnerabilidades adicionais.

Foco na população em situação de rua

A situação da população em situação de rua merece um destaque especial no comunicado, dada a sua extrema vulnerabilidade. O ofício cita que um protocolo municipal preexistente já reconhece que a condição clínica desses indivíduos é agravada pela vulnerabilidade social. Isso ocorre por diversos fatores críticos: eles estão significativamente mais expostos ao calor extremo devido ao menor acesso a ambientes refrigerados e à proteção solar, como sombra e abrigos adequados. Além disso, estão sujeitos a uma elevada carga de morbidade, ou seja, maior incidência de doenças e condições clínicas, muitas das quais são determinadas socialmente e pioradas pela falta de higiene e cuidados básicos. Por fim, esse grupo tem um menor acesso a recursos essenciais como água potável e resfriada, bem como a alimentos adequados e nutritivos, fatores que são cruciais para a manutenção da saúde em condições de calor extremo.

Recomendações e cobrança de transparência

Diante do quadro de risco e da identificação dos grupos mais vulneráveis, o MPF, DPU e DPRJ não apenas apontaram o problema, mas também propuseram soluções concretas e exigiram um plano de ação e transparência por parte das autoridades.

Medidas propostas e estrutura de apoio

O ofício destaca que o próprio protocolo municipal já orienta uma série de medidas preventivas e de mitigação que deveriam ser ativadas. Entre as principais recomendações estão a ativação de centros de hidratação nas unidades de Atenção Primária à Saúde, garantindo acesso facilitado à água e primeiros socorros em caso de desidratação; a designação e ampla divulgação de pontos de resfriamento em locais com ar-condicionado ou refrigeração, como shoppings, bibliotecas públicas ou centros comunitários, para que a população possa buscar alívio térmico; a ampliação da oferta de estações de hidratação ou a distribuição ativa de água nos locais de acolhimento das populações mais vulneráveis, incluindo abrigos e pontos de grande concentração; e a possibilidade de ampliação dos horários de funcionamento dos locais públicos que ofereçam ar-condicionado, refrigeração ou áreas sombreadas. Além disso, o documento inclui recomendações ao estado, como o preparo do Corpo de Bombeiros para o resgate de pessoas em situações de emergência relacionadas ao calor e a garantia da disponibilidade de leitos e capacidade de atendimento na rede de saúde para lidar com o aumento de casos de insolação e outras complicações.

Prazo e exigência de informações

Para garantir a efetividade e a transparência das ações, o MPF e as Defensorias Públicas estabeleceram um prazo de 24 horas para que o município e o estado informassem as medidas concretas que foram deflagradas. Essa exigência é acompanhada de um pedido por “indicação precisa” de detalhes cruciais, tais como: os pontos de resfriamento ativados, com seus respectivos endereços e horários de funcionamento; os locais e horários específicos de distribuição de água e estações de hidratação; as unidades de saúde que estão atuando como centros de hidratação e quais serviços oferecem; os fluxos de atendimento e encaminhamento ativados para os casos de emergência; e as operações de resgate e atendimento pré-hospitalar realizadas em decorrência da onda de calor. A busca por esses detalhes visa não apenas monitorar a implementação das medidas, mas também permitir que a população tenha acesso rápido e claro às informações essenciais para sua proteção.

Perspectivas e próximos passos

Diante da requisição, as autoridades do Rio de Janeiro foram acionadas a se manifestar sobre as providências a serem tomadas para proteger a população dos efeitos do calor extremo. A resposta inicial da prefeitura demonstra o reconhecimento da urgência, mas ainda indica a necessidade de uma ação mais abrangente.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que a prefeitura do Rio de Janeiro já é pioneira na adoção de um protocolo de proteção para o calor extremo, sendo uma das primeiras e poucas cidades do país a possuir tal diretriz. A pasta afirmou que “obviamente seguirá o protocolo publicado”, indicando que as medidas internas já estabelecidas serão mantidas e aplicadas. Contudo, a secretaria complementou que “a recomendação para todo o estado deve ser avaliada por cada cidade, não cabendo à Secretaria Municipal de Saúde do Rio comentar”, delimitando sua atuação às competências municipais e indicando que a responsabilidade pela articulação estadual recai sobre outras instâncias. O governo do estado foi contatado para um posicionamento e a expectativa é que novas informações sobre a coordenação de ações e a resposta às recomendações do MPF e das defensorias sejam divulgadas em breve, visando a proteção de todos os 92 municípios fluminenses. O monitoramento constante das temperaturas e a prontidão dos serviços de saúde e assistência social continuam sendo essenciais enquanto a onda de calor persistir, mesmo com a previsão de chuvas, que podem não reduzir significativamente as temperaturas nos primeiros dias.

Entenda mais: perguntas e respostas

Quais órgãos solicitaram providências urgentes ao governo e à prefeitura do Rio?
Os órgãos que encaminharam o pedido são o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ).

Quais são os principais riscos à saúde causados pelo calor extremo, segundo o ofício?
O ofício aponta riscos como desidratação, exacerbação de doenças crônicas, insolação, exaustão térmica e, em casos extremos, o golpe de calor (heatstroke), que apresenta alta taxa de mortalidade.

Quais grupos são considerados mais vulneráveis aos efeitos do calor excessivo?
Entre os grupos de risco estão crianças (especialmente lactentes, recém-nascidos e prematuros), idosos acima de 65 anos, gestantes e lactantes, pessoas com doenças crônicas e deficiência, trabalhadores ao ar livre e desportistas, indivíduos com restrição de mobilidade e acamados, e a população em situação de rua.

Que tipo de medidas foram recomendadas pelas instituições para combater o calor?
As recomendações incluem a ativação de centros de hidratação em unidades de saúde, designação de pontos de resfriamento em locais com ar-condicionado, ampliação da oferta e distribuição de água, e extensão dos horários de funcionamento de locais públicos com refrigeração ou sombra.

A prefeitura do Rio de Janeiro já possui um protocolo para calor extremo?
Sim, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio informou que a prefeitura possui um protocolo de proteção para o calor extremo, sendo uma das primeiras cidades do país a adotar tal medida, e que o seguirá.

Mantenha-se informado sobre as condições climáticas e as recomendações de saúde. Proteja-se do calor e compartilhe essas informações cruciais com seus amigos e familiares para garantir a segurança de todos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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