Pesquisa identifica campanha eleitoral em 3% de cultos e missas analisados no Brasil

Fé, política e informação: o voto consciente começa com o debate.

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  • religião e política, campanha eleitoral, igrejas, voto consciente, democracia, desinformação
Dra Marcela Paiva

Estudo Fé e Voto examinou mais de 7,4 mil transmissões religiosas e identificou pedidos explícitos de votos, possíveis irregularidades eleitorais e discursos em defesa da democracia e do voto consciente.

A campanha eleitoral também ocupa espaço nos púlpitos de igrejas brasileiras. Uma pesquisa inédita da organização More in Common identificou manifestações de campanha em 237 das 7.453 transmissões de cultos e missas analisadas, o equivalente a aproximadamente 3% do total.

O levantamento, chamado Fé e Voto, examinou celebrações católicas, batistas e da Assembleia de Deus realizadas nos dois domingos anteriores ao primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. O objetivo foi avaliar a presença da política nos espaços religiosos e identificar como líderes religiosos abordam candidatos, partidos e o exercício do voto.

Em alguns casos, pastores chegaram a pedir votos explicitamente e a recomendar candidatos a cargos legislativos e executivos. Em outros, as manifestações foram mais discretas, com a apresentação de políticos como pessoas próximas à comunidade religiosa.

Apesar dos episódios identificados, os pesquisadores ressaltam que a campanha eleitoral não foi predominante nas celebrações analisadas.

“A campanha eleitoral é presente, é um problema, mas não é majoritária”, afirma Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Pedidos de votos se concentram em candidatos locais

Embora a disputa presidencial também apareça nos discursos religiosos, os nomes mais citados não são necessariamente os de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Quando os líderes pedem votos para candidatos específicos, as manifestações se concentram principalmente em postulantes aos cargos de deputado estadual e federal.

“No final das contas, o que está em jogo são as relações comunitárias”, observa Rodrigo Toniol, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos responsáveis pelo estudo.

Em uma das gravações, feita em uma igreja Assembleia de Deus na zona leste de São Paulo, um pastor anunciou que faria um pedido de votos, algo que descreveu como inédito. Durante o discurso, criticou eleitores evangélicos que votaram em Lula e defendeu o apoio a candidatos identificados com a direita.

Em outro registro, feito em Goiás, uma mulher anunciou a chegada de um candidato a deputado durante uma celebração, apresentando-o como “nosso deputado”. Embora o vídeo não mostre um pedido explícito de votos, o episódio foi incluído no conjunto de situações analisadas pelos pesquisadores.

Assembleias de Deus registram mais pedidos explícitos

A pesquisa identificou diferenças entre as tradições religiosas examinadas. Nas celebrações das Assembleias de Deus, pedidos explícitos de votos apareceram em 8,3% dos casos analisados. Nas igrejas batistas, o percentual foi de 1,4%, enquanto nas missas católicas chegou a 0,7%.

Os pesquisadores estimam ter analisado cerca de 10% das celebrações das tradições religiosas consideradas no estudo, com base em registros administrativos disponíveis.

Ao todo, foram examinadas mais de 13 mil horas de áudio, o que permitiu identificar tanto manifestações de campanha quanto discursos sobre cidadania, responsabilidade coletiva e participação democrática.

“Por meio da tecnologia, a gente conseguiu olhar para um número de casos sem paralelo”, afirma Toniol.

Pesquisa identifica possíveis crimes eleitorais

Além dos pedidos de votos, os pesquisadores identificaram situações que podem levantar questionamentos sobre o cumprimento da legislação eleitoral. Em alguns episódios, líderes religiosos pediram que a transmissão fosse interrompida antes de abordar candidatos de maneira mais direta.

Toniol ressalta que as gravações analisadas eram transmissões públicas, disponibilizadas ao vivo no YouTube.

“A gente não colocou uma câmera escondida em nenhum lugar. Tudo aquilo estava sendo dito e transmitido ao vivo pelo YouTube para quem quisesse ouvir. Inclusive o TSE (Tribunal Superior Eleitoral)”, afirma o pesquisador.

Em um culto realizado em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, um pastor falou sobre a importância do voto e disse que compartilharia com os fiéis uma lista de candidatos em um grupo de WhatsApp. No discurso, também criticou a presença de eleitores do PT na igreja.

Em Sorocaba, no interior de São Paulo, um padre orientou os participantes de uma missa a levar para casa um panfleto de propaganda eleitoral distribuído na saída e utilizá-lo como referência para votar conscientemente.

Os episódios mostram diferentes formas de interação entre lideranças religiosas, candidatos e eleitores durante o período eleitoral.

O que diz a legislação eleitoral

A Lei das Eleições, de 1997, estabelece restrições à propaganda eleitoral em bens de uso comum, categoria que inclui templos religiosos. A legislação também proíbe que partidos políticos e candidatos recebam doações de entidades beneficentes e religiosas.

No entanto, há situações em que a distinção entre uma manifestação religiosa, uma orientação moral e um pedido de voto pode gerar dúvidas sobre os limites legais.

Diante dessa questão, o Ministério Público Federal já recomendou que igrejas não promovam propaganda eleitoral em seus espaços nem utilizem a estrutura religiosa para prejudicar candidaturas.

AgênciaModerna

Segundo os pesquisadores da More in Common, alguns líderes tentaram contornar as restrições ao orientar fiéis a procurar integrantes autorizados da igreja depois das celebrações para obter indicações de candidatos. Em outros casos, houve ofertas para adesivar veículos de membros da comunidade com nomes de políticos.

“A lei eleitoral não dá conta”, avalia Ortellado. Ele defende uma discussão mais ampla entre organizações religiosas, juristas e sociedade civil sobre regras eleitorais e princípios éticos aplicáveis a essas situações.

Influência religiosa na política não é recente

A presença da religião nas disputas eleitorais brasileiras tem uma trajetória longa, mas ganhou maior peso nas campanhas presidenciais nas últimas décadas, segundo Alexandre Landim, sociólogo e professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE).

Autor do livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil, prestes a ser publicado à época da entrevista, Landim afirma que candidatos também recorrem estrategicamente à retórica religiosa para conquistar eleitores.

Um marco dessa dinâmica foi a eleição de 2010, quando questões como o aborto e a presença de símbolos religiosos em espaços públicos ganharam destaque no debate político. Segundo o pesquisador, a oposição utilizou argumentos religiosos para questionar a candidatura de Dilma Rousseff, então apoiada pelo presidente Lula, que registrava altos índices de aprovação.

No cenário político atual, temas religiosos continuam presentes nas campanhas. Landim cita a polêmica em torno de Nossa Senhora e a declaração de Flávio Bolsonaro de que, caso eleito, decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

Para o sociólogo, entretanto, a influência religiosa não se manifesta de maneira uniforme entre os grupos de fiéis.

Renda também influencia o comportamento eleitoral

A pesquisa de doutorado de Landim identificou mudanças no comportamento eleitoral de pessoas religiosas de baixa renda entre 2010 e 2022. Nesse período, o apoio ao PT diminuiu entre os evangélicos e aumentou entre os católicos que recebiam até dois salários mínimos.

Segundo o professor, a diferença entre os dois grupos chegou a 26 pontos percentuais.

Uma das possíveis explicações envolve a afinidade com pautas conservadoras e a influência da chamada Teologia da Prosperidade, presente em setores pentecostais e neopentecostais.

Essa corrente religiosa associa conquistas pessoais, como adquirir a casa própria, aumentar a renda ou ingressar na universidade, à bênção divina e à fé, frequentemente relacionadas ao compromisso financeiro com a igreja.

Na avaliação de Landim, essa perspectiva pode dificultar que parte dos fiéis evangélicos de baixa renda associe melhorias em suas condições de vida a políticas públicas e ações governamentais. O pesquisador ressalta, porém, que existem diferenças importantes entre grupos e indivíduos de uma mesma tradição religiosa.

Discursos religiosos também defendem a democracia

Apesar dos episódios de campanha e das possíveis irregularidades identificadas, a pesquisa também encontrou manifestações consideradas positivas pelos pesquisadores.

Em diversas celebrações, pastores e padres defenderam a paz, a coesão social, a responsabilidade cívica e o respeito entre pessoas com posições políticas diferentes.

“São falas saudáveis numa democracia. No final das contas, somos todos membros da mesma comunidade. Houve maneiras de lidar com a situação eleitoral e seus impactos de uma maneira muito melhor no púlpito”, afirma Ortellado.

Para Toniol, os discursos voltados à cidadania e ao voto consciente podem contribuir para fortalecer a democracia e reduzir a polarização.

Os resultados indicam que a relação entre religião e política vai além do apoio explícito a candidatos: os espaços religiosos também podem servir à reflexão sobre o papel do eleitor, à convivência entre diferentes posições e à participação democrática.

Fonte: IG Notícias

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